sexta-feira, 28 de setembro de 2007

PAROLE

De modo esconso
− para que não percebam ou refratárias fiquem −
observo a subcutânea alma das palavras:
umas apresentam picardia implícita
altivez (im)penetrável
outras são simples como o talvez convexo
reflexo
do brinco
branco
da lua
no asfalto da rua
à esquerda do amplexo

Após intuitivo selecioná-las
rápido as apanho no ar
em certeiro bote de naja
− língua bífida ácida e ávida −
quando voejam ao alcance da mente
(tais quais velozes
semi-invisíveis e escorregadios morcegos vernaculares)
aberta ao novo
ao demente
à quebra do bizarro ovo
cristalino&bizantino

A seguir trabalho suas bordas
cutuco os nervos da raiz semiótica de seus dentes monossilábicos
escalavro as íntimas reentrâncias de suas sementes
suas instâncias últimas do entender
− ainda duras
metalizadas em seu sentido original
(não transfiguradas pela ação da poiese)

Minha meta (linguística?) é dobrá-las
dissecá-las
espancá-las por travesso
estuprá-las pelo avesso:
quebrar suas espinhas dorsais
a ponto tal que se liquefaçam
entre os lábios secos de ais
de amor&tesão coagulados
na lembrança opaca
− para que se depurem e brotem num novo florir:
semântico
romântico
consonantal
(in totum)

Desmonto-as
de suas engrenagens ocas
e ósseas
e remonto-as
num novo bric-a-brac
de prazer cosmético
dialético-estético

Esfaqueio-as
em verso público
e as vejo agonizar
na fria calçada das letras insalobras
− aos olhos dos eventuais circunstantes letrados −
em sua concretude filológica e sincrética
até o último A
sonoro
e bilabial

A seguir procedo à autópsia:
distendo-as sobre a mesa de trabalho
e com afiado bisturi recorto-as
desmembro-as
desmetabolizo-as
de seu DNA original
− passando pente fino
em suas estranhas
entranhas
arquetípicas e abissais

Intento desnudá-las
de suas pudicas
e atávicas
circunstâncias e reentrâncias
gramaticais
− por isso as fecundo com novo leiaute
pleno de células-tronco sexuais

Almejo expor suas nudezas implícitas
suas (im)purezas sub-reptícias
e assim elevá-las ao cubo de seu primevo entendimento frasal
efetivo e real
como sonho desconstruído
com simples piscar de pálpebras ansiosas
e um gemido
genital
(quase mugido
quase venial
bramido)

Quero que sangrem
como animal injustamente ferido
ou no cio

Quero que sujem
a barra do vestido
lexical
e sob medida costurado
da língua
exangue
que cicia o desejo
por ar não contaminado

Com garra
esmiúço e fuço
o caroço
da sílaba oculta
no dorso
da frase agreste
da frase peste
− aquela que não se entrega de todo à caneta

Lânguido chupo
os tutanos
malocados
nas estreitas cavidades ósseas da palavra por vir

Com fúria criativa
dessacralizo e cultivo
o tato
de sua pele alfabético-erosiva
em busca do ardor secreto
de seu lado puta
(re)torto
− aquele que permite brincar
e bolinar
as palavras com total irreverência cênica
obscena
fescenina
tanto no horto
quanto no adro

Além desse atávico lado
lúdico
lúbrico
escrevo para revolver cadáveres
insepultos
no peito
devolver imagens perdidas a seus respectivos leitos

Escrevo para extirpar as frias arestas das frases
proferidas com topete
sobre a lama
solidificada no tapete
à beira da cama
− ou do carma −
social

Escrevo para dar voz aos gritos
ceifados
nos indigentes berços
da palavra por nascer
− brutalmente abortada em cáustica saliva de indignação
por motivos alheios à sua vontade

Escrevo para desvelar o (entre)visto
mas não lido
desvendar o fato
revelar o olfato
− não o entreouvido

Escrevo para vomitar o insuportável
cruel e belo
movimento do cutelo
antes do golpe torpe
covarde
e fatal

Escrevo para resgatar a memória
de algumas das páginas para sempre perdidas
nos jardins suspensos da Babilônia
− ou esquecidas
em algum fictício
interstício
da torre de Babel
por arguto sábio com mágico anel

E para que
− por fim −
a palavra se faça elemento frasal
(bolha de sabão comunicativa na esquina do lábio
paralelo à travessa
da língua travessa)
corajoso cuspo nas asas
nas tetas
nas gretas
e lexicais e profundas
tretas
da fecunda Grande-Mãe Parole
− necessário estorvo morto e renascido a cada dia:
Phoenix litteratim est!

MAQUINO, 27.IX.07

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

KAMA-FUSCA (miniconto)


Diz o malandro carioca:
− Kama-Sutra? Isso é mole, mermão! Difícil, mermo,
é trepar, bem, no aperto de um Kama-Fusca...

MAQUINO, 26.IX.07

terça-feira, 25 de setembro de 2007

MOVIMENTO CRESCENTE (miniconto)


Ao entrar na sala de aulas, a professora vê pequeno pênis desenhado na lateral do quadro-negro. Sem palavras o apaga.
Dia seguinte, novo pênis, maior − idêntico procedimento.
No outro, um enorme, ao lado da frase: “Quanto mais me alisa, mais cresço!”

MAQUINO, 25.IX.07

COLEIRA DA BRISA

Hoje
− haja vista as circunstâncias adversas
à entrada de bom ar nos pulmões e na pleura −
quero apenas sentir
o macio interno da coleira
da brisa contida
no anverso
do transverso
do reverso
do verso
traquinas
desvelado
(nas esquinas
gramaticais e perigosas das rimas
putas, viciadas e estilisticamente perdidas
na sonoplastia implícita ao verbo Ser)
pela análise do DNA do tutano
do osso magro
do poema sujo
rabiscado às pressas na parede do banheiro do cinema
− impresso, subliminar, no rosto suado
do fonema
narcisamente apaixonado
pelo próprio som anasalado e inútil
à atual conjetura comunicacional

MAQUINO, 25.IX.07

CONFORTO DIGITAL


"Devota-te à pátria, à querida,
Segura-a com todo o coração,
Nela estão as raízes fortes de teu peito"
SCHILLER (1759-1805), Guilherme Tell, Ato II

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

JOÃO E MARIA


Ajeitando os óculos, o senhor recosta-se de todo na frágil cadeirinha de madeira. Algumas ripas estalam, resultado, talvez, não tanto da estatura ou envergadura do homem que sobre elas senta, mas do peso do orgulho que traz em si e alardeia: o de sustentar a mulher e não permitir que trabalhe fora.
Satisfeito, leva a mão ao copo de cerveja. Soergue-o e, lânguido, sorve grande e cúpido gole. A seguir, acaricia − meio brusco − a adolescente que quieta o acompanha.
Tímida, esboça um sorriso enquanto ele, com o dorso da mão, limpa a espuma alojada no bigode. Com um único trago bebe o conhaque sem pedigree, num copo pequeno e vagabundo. No instante em que seus malévolos olhinhos se apertam por trás das lentes, puxa a garota para si. Senta-a em seu colo e afaga-lhe a barriga à mostra, como se acariciasse um cão.
– Tu é tão novinha, minha bichinha. Tu é tão novinha... – exclama feliz, enquanto, cuidadoso, alisa os cabelos para trás.
A garota deixa-se ficar e pressupõe que deva alargar um pouco mais o sorriso e a abertura das pernas. Ele, agitado, funga-lhe o pescoço e, com leve tapa na bunda, a desaloja de sobre os joelhos.
– Fica em pé, minha santinha. Fica em pé! Quero te ver toda inteirinha – e levantando os olhos para o céu agradece, os lábios impudicos:
– Obrigado, meu Deus, obrigado! Mulher velha tenho em casa... Meu negócio é franguinha. Quanto mais nova, mais arrepiado fico... Ai meu Deus do céu!
Ajeita novamente os óculos. Os olhos injetados de prazer como que empurram as lentes. Com a mão da menina nas suas, sussurra:
– Franguinha, franguinha... tu é tão novinha que vou inflacionar o mercado: vou te pagar 10 “real”.
Enquanto caminha para o quarto miserável – cuja decoração consiste numa cama, cabide e pequena pia – lembra da esposa e, mais uma vez, sente o indisfarçável orgulho de, resguardando-a, tê-la afastado dos perigos deste mundo.
Não gosto de sem-vergonhice na minha casa, pensa, enquanto desaparece, lépido, na semi-escuridão do corredor nauseabundo – a garota a um passo atrás, pressurosa e respeitosa!

MAQUINO, 30-31.III.97


BAIXA TEMPERATURA (microconto)

Tira essa porra do microondas e põe no freezer!!! Vingança é algo que se come frio...
MAQUINO 24.IX.07

sábado, 22 de setembro de 2007

QUERÊNCIA

Gritando, repetia o velho mantra:
Eu quero o verde do mar! Eu quero o verde do mar!
Na praia, com o auxílio de uma colher de prata − herança materna − recolhia a água das ondas, com grande delicadeza, e a depositava no interior de pequeno balde, infantil. Repetidas vezes. Com esmiuçada atenção. Como se cada molécula de cada gota contivesse mil segredos.
Porém, no balde, a água não mais era verde: apenas água, simplesmente...
Desesperava-se, então, emitindo em altos e sofridos brados:
Eu quero o verde do mar! Eu quero o verde do mar!
Furioso, espargia a ira atirando-se de encontro à areia. Chorando e balbuciando lamentos e granitos de decepção tonitruante e inútil.
No dia seguinte, a mesma cena em replay − até que a família o internou num sanatório.
Lá, como sequer existia cheiro de mar, mas sim o concreto farejar da realidade de um muro de vários metros de altura, colocava uma cadeira sobre a mesa e, nelas, célere, subia.
Elevando os braços para o céu, esboçava gestos de querer reter o infinito: as mãos fechando-se sobre si mesmas – dentro, o vazio –; os dedos arranhando o ar.
E com o corpo balouçante, o rosto agitado, a jugular fremente e o olhar aflito punha-se a esgaravatar, feroz, as nuvens mais próximas de suas nodosas e sujas unhas, vociferando:
Eu quero o azul do céu! Eu quero o azul do céu!
Imerso em tal busca insana, não percebeu a dádiva divina de maravilhosa lágrima azul... Pena!

MAQUINO, 2.VIII.72

O CACHORRO QUE FALAVA JAVANÊS

O rapaz, filho de fazendeiro bem-sucedido, embarca para os Estados Unidos, onde vai cursar importante especialização.
Gastador emérito, já na metade do 1º semestre detona o dinheiro que o pai destinara para todo o ano. Ante tal circunstância, adversa, tem brilhante idéia.
Telefona para o pai e, como se por acaso, entre trivialidades, relata:
− Pai, você não vai acreditar nas maravilhas da moderna educação desse país. Pois não é que eles têm um curso para ensinar cachorro a falar?
O pai, intelectualmente simplório, fica maravilhado:
− E como faço para que aceitem o Rex aqui de casa?
− É só mandar ele para cá com U$45,000 que faço a matrícula. Depois, te digo quanto custa a mensalidade.
O pai, claro, cai na conversa e segue a orientação filial.
Passados alguns meses, o rapaz torra a grana, como peculiarmente fazia − ato ecumênico [“É dando que se recebe...”] que o torna o xodó das vadias interesseiras. Após ponderar, considera um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do seu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesita, mas, implacável, liga outra vez:
− E daí, meu filho? Como vai o Rex?
− Fala pelos cotovelos, pai. Um espanto! Mas agora abriram outro curso: para os cachorros aprenderem a ler.
− Não brinque! E podemos matricular o Rex?
− Claro, pai! Me mande U$100,000 e deixe comigo!
O velho, alma ingênua, mais uma vez envia o dinheiro.
O tempo vai passando, o final do ano chegando e o rapaz se dá conta de que, ao retornar, vai ter muito o que explicar. O cachorro, é claro, não fala uma palavra; não lê porra nenhuma. Enfim, continua exatamente como sempre.
Sem nenhuma consideração, solta o pobre bicho à própria sorte e pega o avião de volta.
A primeira pergunta do pai não podia ser outra:
− Onde está o Rex? Comprei uma revista sobre animais, em inglês, para que ele leia para mim.
− Pai, você não imagina... Já estava tudo pronto para a viagem de volta quando vi o Rex no sofá, lendo o The New York Times, tomando uns goles de vinho e escutando sua FM preferida, como fazia todas as manhãs. Aí, de repente, ele me sai com essa:
− Então, vamos para casa... Isso é bom. Mas como será que está o velho? Será que ainda continua trepando aquela viúva jovem, sonsa, sarada e safada que mora na casa da frente?
O velho, mais que rapidamente:
− Mas que cachorro lazarento... Espero que tenha metido uma bala nesse filho-da-puta antes que venha falar com tua mãe!
− Mas é claro, pai. Foi o que fiz!
− É assim que se procede, filho! Muito obrigado...
Dizem que o rapaz se formou com louvor e tornou-se político de renome, verdadeiro exemplo.

MAQUINO 23.IX.07 (versão, livre e atualizada, de O homem que sabia javanês, de Lima Barreto)
.

RELATIVIDADE DO AR: SECO


quinta-feira, 20 de setembro de 2007

DIVINO TÉDIO

Um dia, lá pros tempos de trás-ont’ontem, quando se amarrava cachorro com corda de lingüiça, Deus passeava − deslizando, suave, a sandália artesanal − na vastidão das veredas floridas, tranqüilas e plenas de canoras sinfonias silvestres do Paradise Garden quando, repentino, sente-se solitário e depressivo. Enfrenta, nos últimos decênios, aguda e cáustica crise existencial.
– De que Me serve tudo isso? Foi para viver assim que nasci? Eu? Logo Eu? – indaga-Se, apoteoticamente.
E vem-Lhe à mente as todas reprimendas verbais proferidas pelo Pai, quando das incidentais discussões familiares:
– Filho... Precisas dar um jeito na vida! Esse negócio de ficar criando estrelas não dá futuro a ninguém... Precisas ter uma razão maior ante a existência, pombas! Afinal, para que serves? Para viver neste divino tédio? Não, filho... isto não diz teu devido valor! Sabes que tens a eternidade pela frente. Portanto, ocupa-te, para teu próprio bem... Cries algo que seja uma razão para existires e que, adicionalmente, também te ocupe o tempo. Uma razão real, entendes?
Deus, verdade seja dita, há muito estava entediado com aquele marasmo secular e cotidiano. Já criara o céu – toda noite, de brincadeira e para não esquecer as palavras mágicas, acrescentava-lhe mais uma estrela –, as terras, as matas, os bichos, que Lhe restava fazer?
Pensativo, cofia a hirta barba apenas com dois dedos − espécie de tique, tal qual arrancar bruscamente os pêlos do nariz, coisa que faz quando irritado. Sua expressão: taciturna e preocupada.
Imerso em solilóquios, portanto disperso, não presta maior atenção à horizontalidade do trajeto. Anda como que de forma automática, envolto nas asas das pesadas elocubrações, cabeça inclinada e cabelos esvoaçantes ao vento mediano. Um cigarro numa das mãos; gestos perdidos na outra. Súbito, chuta a pedra no meio do caminho − drummondiana...
– Diabos! – vocifera, entredentes de repente crispantes.
Enquanto esfrega e sopra o divino dedão, brota, como relâmpago, a idéia: por que não fazer algo, uma forma, que se assemelhe à palavra que acabo de criar no ímpeto da dor?
Concentra-se em imaginar o estereótipo. Senta-se, pensa melhor assim. Afunda-se em conjeturas metafísicas e, haja vista sua onisciência, lembra dos pares de oposição de Lévy-Strauss.
– Eureca! – dá forte tapa no joelho e, sem querer, esmaga um mosquitinho que ali pousara. No instinto emotivo da compaixão, pede desculpas e, instantâneo, o faz reviver. Após esse pequeno e insignificante milagre, volve a ater-se ao problema que tanto o aflige.
– É... É... − e bate com os dois dedos (aqueles supra utilizados), ininterrupta e concomitantemente, no nariz e na boca, um em cada, sinal de que está em alta ebulição mental: momento de fato criativo. Decide-se, afinal: tem que ser o meu oposto!!! Mas, ao mesmo tempo, interligado: um ser que, ao se pensar nele, por antagonismo pense-se também em mim. O meu antônimo, digamos assim, aquela unidade significativa da língua cujo sentido é contrário ou incompatível com o de outra. Droga, estou me enrolando com essa verborréia acadêmica... Mas acho que Pai vai gostar. Agora, mãos à obra!
Rítmico, bate palmas − sete vezes − e a seguir executa um movimento iogue de grande complexidade elástica, pronunciando, em rápido e breve mantra, as palavras mágicas: “O bem que não fizeres, dos teus não esperes...”
De imediato o Diabo surge, do nada. Assim: “puf!” − efervescente e maléfico, numa nuvem de fumaça, verde e horroroso que nem cor de bandeira nacional.
Deus, então, dá-se conta de que não pensara na cor.
– Caraca!!! Estou a caducar? Alzheimer precoce? Tome tino, rapaz! (e dá leve tapa na própria testa). Mas, afinal, que cor darei a essa estranha e horripilante criatura? Verde não pode ser... verde é a cor da esperança.
Enquanto cuida desse pormenor cromático, fita o próprio pé, particularmente o dedão vermelho e latejante, e pensa: já que daí surgiu tudo, vai ser vermelho mesmo!
E expele mais algumas palavras mágicas em flor.
O Diabo, respirando ávido o ar da vida que se lhe infiltra nos cavernosos pulmões, dá um vôo rasante − pra treinar o uso das asas − e roufenha gargalhada vermelha.
Deus, com voz tonitruante, o repreende no ato:
– Quieto, imbecil! Aqui, quem manda sou Eu! Se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul! Do mesmo modo que te criei, te desfaço, poço de merda vil... E para evitarmos posteriores confusões, vamos dividir os territórios: você manda na Terra; Eu, no Céu! E então?
O Diabo, intimidado, evidencia sua aquiescência com singelo movimento de chifres. Submisso.
– Pois bem, agora vai-te! – e com um gesto (chutar de dedos no ar) o expulsa do Paradise Garden.
A seguir, colhe uma maçã e mordisca-a, contente − uma cobra o observa a distância.
Ao retornar, relata o ocorrido ao Pai, que aprova a criação com simples meneio de cabeça, haja vista estar com a boca virtualmente repleta de papos-de-anjo, sua sobremesa predileta.
Deus, entusiasmado com a aprovação paterna – e para manter o Diabo ocupado – dá continuidade à idéia e no dia posterior cria o Homem; pouco depois, meio decepcionado, a Mulher.

MAQUINO, 14.VI.78

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

TRIBUTO A RAUL SEIXAS


"Quem não tem colírio, usa óculos escuros..."

HOMENAGEM RECEBIDA


Miniconto recentemente dedicado a este velho telegraphista das palavras, sob o título Old Man, da lavra de CRIStiano Zuboski, brother dos 'bão' e jornalista especialista em rock, colaborador efetivo, entre outras publicações especializadas, da recém-extinta Bizz, visceralmente apaixonado pelo som de T. Rex:

Subindo a escadaria ouvi: "Tommy can you hear me?" Ontem à noite foi o doce pranto de Mr. Tambourine Man. Coltrane. Michelle Phillips!
Toc, toc, toc – a porta se abriu.
Cortina de fumaça, ladridos caninos e rios, mares, oceanos de cerveja...

terça-feira, 18 de setembro de 2007

CORÇA SELVAGEM


Tinhosa
como corça
(ou cobra)
selvagem
e esquiva
ela esgrime
o rímel
da saliva
que ao contato com o ar
reflete a inverossímil,
súbita e fatal rima
venenosa
contida nas implícitas e significantes armas
de sua pele sedosa,
letal perfume
e poder de submeter
quem quer seja
ou a vier esteja
predestinado a...

Afiada como agulha
penetra fundo
na veia
afônica,
amorfa e disrítmica
da teia
tosca
da individualidade excessiva,
corrosiva
e anti-social

Poderosa,
esvoaça
malignos arabescos no ar
− bruxalmente tecidos
num veludo existente apenas na mente
por suas oito mortais pontas
de cirúrgico
aço
batizado e crismado
pagãmente
no Paraguai

[Uai,
sô...!!!
Pruquê não in Minas?

− preguntou alguém...]

Ante tais predicativos
recomenda-se total atenção preservativa
pois,
perigosíssima,
a criatura abre os bornais
− tecidos à mão,
bem como os delicados panos de mesa,
pelas amorosas vestais siamesas −,
os portais
carregados de pecados
suscetíveis
e sub-reptícios a
− pairando no momento exato do equinócio polar −
violar o infinito desenrolar
do indivisível ser
do verso
do anverso
sofrível
do espectro solar
− intermitente que nem dor de dente
no amaldiçoado
feriado...

MAQUINO, 19.IX.07

ÊMULO/Ê MULO


O mulo
− evidentedentes nada burro −
de súbito paralisado
ante o sedutor
rebolado
e sex appeal
da mula
marrom e no cio
emula
(como algodão-doce de prazer
generosamente ofertado em zôo lotado)
um silvo de amor
um zurro
em flor
macio
de paixão animal
não saciada
e a fim de
Quase um cicio
à primeira vista,
à primeira pista
eqüina
de ser
feliz
na esquina
do sofrido
trotar em busca de...

MAQUINO, 10.IX.07
(dedicado aos explorados/maltratados cavalos urbanos, vítimas inocentes)

SEDE NOTÍVAGA


No árido deserto da noite
uma sede brusca inesperada e intempestiva
sacode-me o sono,
o sonho,
e faz-me levantar no meio da espessa e fria
fatia da madrugada

Acendo a luz vermelha
e, descalço, rumo à cozinha-oásis

Retornando ao quarto, descubro,
súbito,
a beleza nua de minha mulher dormindo mansamente na cama-ninho:
como uma rosa no jardim-lençol,
como pequeno e frágil pássaro,
como discreta nota de si-bemol
num blues antigo e dorido

Os cabelos-pétalas abertos no travesseiro florido,
os braços-asas levemente pousados
(parecem-me sequer ter peso)

Olho-a demorada e profundamente...

Totalmente vermelha:
linda e apetitosa
como uma maçã-do-amor

Na casca do seu corpo
escrevi meu nome
Na cartilha dos seus dedos
aprendi a ler-me
No espelho do seu olho
aprendi a ver-me
No abismo dos seus abraços
aprendi a ter-me
Na lisa e doce textura
do macio interior de suas coxas duras
aprendi a perder-me

Apago a luz
e tudo volta a ser como antes
(exceto meu sentimento,
que aumentou um gole...)
MAQUINO, 11.X.76

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

DA LEVEZA DE DEPOIS

Nega,
às vezes,
quando acendo um cigarro,
relembro do cigarro
e da leveza de depois
de ter

Da leveza de depois
de me ter
em ti,
plenamente,
como a casca na maçã,
plenamente sendo em ti

Relembro da leveza de depois
de ver meu reflexo
na tua garganta,
no teu umbigo meu olho

Relembro da leveza que dá
ler em tua boca
teu gostar de me ter,
de se dar

Da leveza de depois
de ter entre os dedos
teus pequenos e delicados
dedos,
lóbulos,
mamilos,
sorrisos

Relembro da leveza de depois
de beber
a noite dos teus cabelos,
o poço de teu pescoço
e a relva de teu ventre

Relembro da leveza de depois
ao escutar calmo e quieto
teu coração dentro do cérebro,
teu respirar dentro de mim,
teu murmúrio doce de pássaro
dentro do meu olho

Da leveza de depois
de afagar,
de me afogar
na tua pintinha,
de sentir a sinfonia
de teu riso
rompendo as paredes de mim,
inundando o ar,
o quarto,
o mundo,
o sol,
meus pulmões,
minha mente

MAQUINO, 26.IX.75

sábado, 15 de setembro de 2007

GRAFORRÉIA


Parole, única sobrevivente da outrora poderosa e respeitada família Bucephalus, de nobre estirpe latina, pondera, conclusiva, que seu velho companheiro − o cabisbaixo, vesgo (em função de incidental acidente locucional prepositivo) e, nos últimos tempos, furtivo Oclusivo Bilabial − já não anda bem do olho, sexo, pernas e juízo.
Particularmente das orelhas, pois nelas amadureceu uma surdez que não mais o permite decodificar com propriedade e devida paixão e entrega epidérmicas as sílabas e/ou expressões por Parole emitidas, muito menos as evoladas pelo fatal e promíscuo perfume violáceo malocado entre as coxas túrgidas e levemente trêmulas − em particular nas cálidas noites caleidoscópicas de camisola lilás e transparente como raios X de fios-de-ovos orientais, nas quais os ditongos e tritongos, haja vista a ressonância da nasal, sonorizam-se semanticamente na dor liquefeita do peito que, desavergonhado, caninamente arfa por carinho, mesmo que pagão...
A situação exige decisão séria e cabal! – diz de si para si, cuspindo de lado o tabaco mascado e ajeitando as longas madeixas negras, superlativamente etnônimas e macias, que lhe descem adverbialmente pelo torso.
Parole, tinhosa, sinistra em determinados comportamentos, alcoviteira, infiel e portadora de leve buço sobre os lábios possessivos, aparentemente cruéis, mantém, contudo, um corpinho filologicamente esbelto e bem conservado para a idade que jamais revela, nem nos íntimos flashes de entrega do enunciado. Adicionalmente, apresenta uma verve e locuções substantivas e adjetivas de levar pároco do interior do sertão a murmurar, entre orações versificadas, em aramaico no poço de seu ouvido quando dos íntimos momentos de profundezas psíquico-enlevantes costurados nos interstícios dos confessionários coloniais.
Com tais predicativos não lhe foi difícil arranjar um amante: o Sonoro, também Oclusivo Bilabial − nome comum por esses rincões gramaticais, espécie de Silva −, porém bem mais jovem. Cheio de gás neon, desenvolve radical, ágil e contundente interpretação na guitarra-solo da banda grunge Gramatical Trash − a venerada GT.
Completiva nominal, a lua-de-mel, ruminada na semana posterior à síncope coronário-verborréica que fulminou o ex como um relâmpago fatal quando de sua descoberta dos galhos na testa, foi vibrante e átona e ocorreu em rara noite de completa elipse lunar: sem impedimentos intermitentes ou nasalidades fragmentadas, fonologizaram incontáveis vezes, com as necessárias variações condicionadas pelo frio do potente ar refrigerado na base da nuca exposta e crua de Parole − pronta para eriçar-se por completo em singela genuflexão erótico-permissiva, ideal para a ocasião mística.
Alimentam-se, por dias, de completa efusão de carinhos sem-fim e gustativos, acústicos, articulatórios e, os mais freqüentes, os perenemente fricativos, africados, longilíneos, encorpados e com suave textura ao tato exalado pelos dedos frementes, ansiosos de tesão e tensão intramoleculares indefinidos.
Nesses momentos, sentindo-se, na essência da alma, verdadeira cadela violada e feliz, Parole esgrime com ardor e tepidez lúbricos − os olhos ensangüentados e injetados de furor uterino − a langue canina, exangue e sapiente. Em tais circunstâncias, gane amorosa e contínua por horas a fio, cinzentas e pornotenebrosas, um grito de cio cortante e gélido à espinha dorsal de qualquer ser vertebrado − por tiquitinho não balia, mas protagonizava verdadeira graforréia de uivos elásticos e oniricamente tendenciosos.
Com a epiglote ansiosa por sexo oral e gargântua profunda e profanamente deliberativa para assuntos pessoais, Parole rememora sua profícua experiência acumulada ao longo dos compêndios proibidos. Pensa em audaz posição, quase Kama-Sútrica, mas não oclusiva.
Prenhe de tal consideração metafísica, acerca-se sub-reptícia e pau-la-ti-na-men-te de seu novo amor, letra a letra, sílaba a sílaba, sem quaisquer interjeições porventura não bem-vindas, muito menos uma vírgula mal empregada; ou pior, uma crase errônea e foneticamente desnecessária − afônica, além de cataclástica.
Exausto pelo desmedido e desenfreado esforço causado pelo encontro consonantal e trifásico, com direito a ênclise, parênteses e tudo − sem falar nos et ceteras −, o amante, ainda arfante, descansa em posição fetal sobre acolhedora almofada de metáforas circunstanciais, tecida por dedicada carpideira e recheada de interrogações psicanalítico-freudianas.
Então sente − úmida e pegajosa − a adjetivação grave e evidente de Parole a cutucar-lhe, suave, o objeto de desejo, ora natimorto e lânguido, como se sem querer o fizesse... Olhar de criança pudica e interiorana...
Cacete de agulha esperta ela espera obter, pensa sem sequer triscar o siso no gelo do uísque.
Com as inúmeras preliminares sábias, manhosas e alveolares por Parole efetuadas, rápido Sonoro recupera a força vital do palato − antes mole, agora duro e resplendente, magnífico, um cajado enviado por Deus num final de tarde bucólica onde os urubus deliciam-se em levitar ao sabor das correntes adjetivas do ar rarefeito e poluído, assustando as borboletas em flor e os papagaios-de-encontros-amarelos, que só se comunicam em latim arcaico.
Deixa-se deliciar por mais um parágrafo e, tateando aqui, ali e acolá também, percebe que a úvula de Parole está encharcada de pequenas sinédoques articulatórias, distintivas e com delicada fragrância almiscarada, quase oriental.
Com base no sumário onomástico de conhecimentos eróticos adquiridos e educando-exercitados nos tempos de vacas magras, Parole, reatiçando o fogo da memória contida nos sedosos pêlos pubianos, com sabedoria de fêmea lasciva e docemente vadia demonstra, por inteiro, sua completude e competência bilabiais. Ao final do ato exclama, entre o eco de um gorgulho e outro do ambidestro prazer do amplexo amigdalítico, ainda não totalmente satisfeita: “Pancada de vara não faz caju ficar maduro!”
Ao ouvir tal sincera declaração, Sonoro excita-se para valer e, com seu silogismo dedutivo, abandona as preguiças estanques no passe-partout. Puxa Parole com violência quase que catalogatória − coisa que a delicia sobremaneira −, monta-lhe em riste nas crinas da paixão bandida e, sobre seu dorso torto por antiga queda analítica, empreende eufórica catacrese animal, sem sofismas ou axiomas neurológicos artificialmente apimentados.
Ante a férrea, literalmente, determinação demonstrada pelo parceiro, Parole enlouquece de libido − como há muito não o fazia − e entra em delírios lexemáticos completamente insubordinados a seu controle em razão da virtual osmose seminal.
Após o enredo, Sonoro, cheio de ênfases e adjetivações latentes e pingantes, toma de um parágrafo-padrão (legal, não o alucinógeno) e o pita tranqüilo, na suave paz da comunicação em prosa moderna, não sem antes avisar:
Agora dá um tempo, amor meu... Não agüento mais nenhum tópico, quer implícito ou diluído no parágrafo...
Sem mais palavras, dorme a seguir − exprime a beatitude dos que sabem administrar uma estrutura sintática, opositiva ou concessiva, pouco importa...
A partir dessa inesquecível data vivem felizes para sempre.
Na realidade, quase, pois a paz perdura até o insidioso instante em que as traças descobrem o livro onde ambos residem, gramaticalmente estruturados há anos, em confortável e ampla cobertura, exatamente às páginas 77-9.

MAQUINO, 15.IX.07

MULHER-CANHÃO (miniconto)

Louco por feias, apaixona-se pela mulher-canhão do circo. Um terror!
Aos que o indagam sobre tão estranha tara, diz, à la guru:
- As mulheres feias se entregam mais! A minha, um petardo de prazer...
MAQUINO, 12.IX.07

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

PRA DESOPILAR (anônimo; porém devidamente copidescado)

Lula discursava para dezenas de milhares de pessoas no Anhangabaú, em São Paulo, quando, de repente, surge Jesus Cristo baixando len-ta-men-te do céu.
Postando-se ao lado de Lula, lhe diz algo ao ouvido.
Lula, então, dirigindo-se à multidão, comunica:
- Atenção, companheiros! O companheiro Jesus Cristo aqui quer dizer umas palavras pra vocês.
Jesus pega o microfone e fala:
- Povo brasileiro, este homem que tem barba como eu não lhes deu o pão do conhecimento da mesma forma que eu fiz?
O povo responde:
- Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim!
- Não é verdade que, assim como eu multipliquei os pães e peixes para dar de comer a todos, este homem inventou o Fome Zero para que todos pudessem se alimentar?
- Siiiiiiiiiiiiiiiiiiim!, responde o povão.
- Não é verdade que assegurou tratamento médico e remédios para os pobres, assim como eu curei os enfermos?
O povo, entusiasmado, grita:
- Siiiiiiiiiiiiiiiiiim!
- Não foi traído por companheiros de partido, assim como fui traído por Judas?
O povo grita ainda mais forte:
- Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim!
- Então, o que vocês estão esperando para crucificar esse filho-da-puta ?

TATEANDO

No escuro
tateando
os esteios
os anseios
os seios
as teias
as veias
as tetas
as (mu)tretas
as gretas
as grotas
de Tati
ando e meto
o bedelho
no embate
com o portão
por trás
do espelho portátil
retrátil
e côncavo-convexo
dos óculos do míope vesgo
e trôpego
pelo anverso
do verso
livre e sem rimas
− como uma hemorragia emotiva

Te dou 10 conselhos
para aprender a calma
de fuçar
de ficar
por cima
da cama
do Kama-
Sutra

− cítrica
e doce
position
(Satisfaction,
I can’t get no!)

MAQUINO, 12.IX.07

terça-feira, 11 de setembro de 2007

ABRACADABRA

A
TE
TITI
TATI
BITATE

TATIBITATE
TATIBITETA
TETATATIBI
TIBITATATE

TITA
TATI
TE BITI
TE BATE
TE ANALFABYTE
TE ANAL
TE FÁ
TE BYTE
TE ABA
TE ABRA
CATE
TE ABACATE
TE ABRA

TE

BOICOTE

BOI

TE
COCOTE...
COIOTE...

TE ABATE
TE ÁBACO
TE CÁ
TE DÁ
TE LÁ
TE BAH!
TE DOBRA
TE COBRA
TE COBRO
TE BROCO
TE ABRACADABRA
ABRE-TE CABRA

TECA
TE ABRO DOBRA
TE ABRO BRABO
TE ABRO BRADO
TE ABR’OLHO
TE ABRO
LOGO
TE ABRO LÓGICO
TE ZOOLÓGICO
TE GIM-NECOLÓGICO
TE DEGOLO
TE DELONGO

TE DEST&LADO
TE DEST&OUTRO
ECO
DO TROCO
DO TRECO
DO TOCO
DO TECO
E DO TICO
E DO TOM
& JERRY

TE DRAGO
TE DROGO
TE ORGO
TE ERGO
TE ORGIO
TE ORNO
TE ORNITOLÓGICO
CABRA
SAFADA
FADA
SAFA
DA
DE
MAIS?

Maquino, 11.IX.07

SOLIDEZ GRAMATICAL (miniconto)

Não distinguia a diferença entre ir ao encontro de e ir de encontro a. Até o dia em que colidiu violentamente com o carro num poste e a gramática lhe entrou cabeça adentro. Lição tardia, contudo!

MAQUINO, 6.V.07

ANJOS DA GUARDA - 2


"Uma vez por ano é permitido bancar o louco"

Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.): Da Superstição

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

REFLEXO

A magia contida
no reflexo
de teu sexo
no espelho
− com total ausência de pêlos −
me faz dobrar os joelhos
e agradecer a Deus
a primazia
de com-viver com algo tão íntimo,
belo
e tão teu...
tão meu...

O deslizar de tuas linhas corporais
sobressai nas esquinas
dos olhos
e domina a fria
geografia
contida no andar analítico
dos meros mortais

Desfaz a metodologia do mal implícita no planar dos versos letais
− permeados de chumbo corrosivo
e contidos no Livro Negro do Amor
(utilizados apenas em momentos-chave; cruciais)

Cada passo
de teus pés − leves
(e suaves)
como se de pássaros fossem −
nos leva
e eleva
à total admiração:
como pode alguém levitar sem sequer sair do chão?

MAQUINO, 10.IX.07

domingo, 9 de setembro de 2007

OSSOS DO OFÍCIO (miniconto)





Eram dois a mexer no lixo:
um cão e um homem.
Um, vira-latas; o outro, vira-bicho.

MAQUINO, 30.X.06

TEUS AIS

Teu beijo deixou-me
marcada na boca
a presença de tua língua
molhada
malhada
de entrega
(quente
espessa e macia como calda
de caramelo)

Cor de chocolate
tua pele me envolve
revolve
seduz
minha pélvis
minha mente
minha banda Rolling Stones
meu lado Elvis Presley

Meu olho
reluz
ao te ter
ao desfrutar teu querer
e saciar tua sede
de cio
no ócio
do final de tarde
vadia

Noite e dia
saudades sempiternas do teu tato
cabelos
seios & anseios
et cetera e tais...

Fremente,
freqüentemente contato
teus ais
abissais
que sempre revelam o desejo escondido
nas dobras dos risos de depois
− no abandono das coxas não mais trêmulas de paixão animal

Sobre o lençol
minha alva
alma
vagueia
meu corpo tateia
a teia
do teu arfar
do teu suar no prazer moreno da entrega
− tão meus...

MAQUINO, 10.IX.97

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A CAIXA


O olho
da caixa de fósforos
marca Olho
olha
imperturbavelmente
as coisas em redor.
Não pensa,
não possui consciência,
raciocínio, tirocínio,
de que lhe vale, então, olhar?
E além disso
é mudo
e inexpressivo...
E na cidade,
espalhadas nas ruas e edifícios,
são tantas as pessoas
marca Olho
que encontro!

MAQUINO, 4.VIII.72

MANGA MADURA


Última noite de Carnaval
encontro a morena alta,
esguia,
fenomenal

Vestido vermelho,
decote umbilical,
desfilava como enguia
endiabrada,
encantadora e visceral
− embriagada
a cantar olê, olê, olê, olé, olá...

Olhar oblíquo,
de predadora profissional!
Cobra criada...
− de bem além-bar;
de bar-ba-ri-zar...

Olho verde-mar
(fatal e genital mistura)
balança seu guizo
e convida a um final de noite
surreal e sem juízo
− abaixo da cintura

A seguir, fogo nas ventas,
como um touro na arena,
ejacula e acena
seu domingueiro
cheiro
de manga madura
− que perdura como pecado venial:
um ouriço vaginal e levemente perfumado −
sobre o meu olhar atônito,
sobre o meu olhar platônico,
sobre o meu biotônico sexual.

Cobra criada...
Cheiro de manga madura...

O que de imediato
a classifica como fruta proibida,
haja vista minha alergia
a tal entreato,
a tal prato tropical

MAQUINO, 14.V.07

A MÁSCARA


Hoje acordei, saí das cobertas e disbulicamente levantei. Tirei o pijama e dirigi-me ao banheiro, como sempre. Peguei a escova, untei-a de pasta dental e ao ver-me no espelho não me reconheci.
“Será que não acordei? Será isso um pesadelo?” Interrogativamente, cocei os olhos querendo espantar o desconhecido da sensação. Tornei a fitar-me e mais uma vez não me identifiquei.
“Não sou louco! Sei quem sou! Pelo menos sabia até ontem. Embora o espelho não o saiba, embora meu rosto seja outro que não esse”.
Tentei, infantilmente, surpreender o espelho com rápidas passagens e olhadas furtivas para o interior de seu horizonte prateado. Em nenhuma delas vi-me como realmente sou. Ou como penso que sou, evidentemente. Tentei, então, decifrar o mistério da esfinge pairada, presente no meu rosto, ou melhor, na cobertura de meu rosto.
Corajosamente, parei, postei-me e enfrentei o inevitável. Defrontei com a imagem que não era a minha. Inesperadamente, num súbito lampejo de compreensão, descobri que o rosto que moldei, elaborei, calcifiquei, hora após hora, semana após semana, emprego após emprego, esse rosto que não é o meu, essa máscara necessária à minha defesa, criada lenta, paulatina e diariamente, aderiu a meu verdadeiro rosto como horroroso e inexorável visgo que relutava em sair − cujo peso me sufocava e do qual fazia-se mister libertar-me.
Desesperei-me: estilhacei essa pseudo-imagem com um soco. Cada estilhaço, cada fragmento, refletia pequeno ato da peça de minha existência. A hora era grave: empreendi a ferrenha luta, eu versus eu.
Debati-me. Puxei em espasmos angustiantes essa máscara-escudo. Arranquei furioso os cabelos sobre a testa: o sangue fluiu, começou a gotejar nas têmporas e escorreu como pequeninas lágrimas de rubi, umedecendo minha camisa − que se tornou mimeticamente vermelha e com doce gosto de destruição.
Um ruído seco, similar ao som de palha pisada, revelou que o processo de desnudação não mais poderia tardar: deflagara-se.
Então, caí nos desfiladeiros de mim mesmo: nadei nas cavernas abissais do meu ser, à procura do verdadeiro rosto. Arrombei o baú da memória, revolvi os armários das lembranças inextintas da infância, o aterro da adolescência, e não o encontrei.
Soltando imenso lamento, verdadeiro mugido de desespero, reuni as todas forças e puxei uniforme, lúcida e vigorosamente a pele da máscara. Meus olhos, como botões que pulam da camisa, saltaram das órbitas e bolas-de-gude rolaram no chão. As pupilas – mundos translúcidos –, no choque do encontro ao solo, partiram-se e de seu interior escorreram duas gemas violetas que exclamaram: “Rasgastes a ti mesmo. Violentaste-te!”. E nada mais disseram. Envolveram-se nos lençóis do silêncio.
Vi-me cego, pois o brilho do meu verdadeiro rosto ofuscava tudo e todos − inclusive a mim. Assim, não consegui ver-me verdadeiramente. Só as mãos me revelaram as formas do rosto-real.
Balbuciei apenas: “Será Deus um rosto nu?”
Ensandecido, corri gritando e esbarrando nos móveis, corredores e paredes da casa até finalmente encontrar – dentro dos labirintos das sombras da minha intensa luz – a porta e a rua.
O vento bateu-me de chofre na boca entreaberta, esbaforida, refrescando-me a língua que gritava “retirem as máscaras! Retirem as máscaras!” − e as pessoas temeram o brilho de meu rosto (que não via), a força e o som da minha voz.
Por isso, me internaram.


MAQUINO, 11.XI.76

O MEDO DE X



X senta-se à beira do que na prisão chamam de cama: curta, fria e dura superfície de concreto, longitudinalmente presa numa das paredes do cubículo. As demais estão cobertas por frases, datas e desenhos, heranças de antigos habitantes. Mas nada vê. No solo, risca o olhar: nervoso, absorto e preocupado.
Lá fora, o sol sofre feérica hemorragia de luz: o dia está estupidamente claro. X, no entanto, está no por dentro do de si... Nos desvãos de seus medos primitivos. No completo escuro, envolto com as pesadas memórias penduradas nos cabides de outrora.
Sua meditação é bruscamente interrompida pelo remeloso e vigilante carcereiro – velho amigo, em função do passar dos anos e da convivência forçada –, o qual, batendo nas grades com o cassetete, violenta o zunzunzum habitualmente reinante. Apontando-o, diz:
– Ei, companheiro! Boas novas... Seu ‘doutor’ vai te dar férias. Aí malandro...
E afasta-se com caminhar de vaca obesa e premiada. Seus passos prescrutam, com dissimulada pachorra, o comprido corredor. Contudo − não se enganem os incautos − observa e vigia, atento, os restritos movimentos dos detentos, invadindo-lhes a parca privacidade. Às vezes, ouve-se o tilintar do pesado molho de chaves que traz à cintura, geralmente quando coça o saco − cujo eco preguiçosamente morre na argamassa do teto sujo. Interiormente, sente-se uma espécie de São Pedro em céu de meliantes. Envaidece-se da profissão e uniforme – sempre impecável e bem passado, nenhuma dobra a que se possa atribuir resquício de desleixo.
X não esboça gesto ou atitude. Sequer palavra. Apenas soergue os olhos grandes, escuros e amendoados em direção ao som que se esvai por sobre os ladrilhos marrons e brancos. Deita por inteiro o forte corpo sobre o simulacro de leito e abre as tramelas das gavetas memoriais. Repassa antigo filme: sua chegada à penitenciária e a conseqüente adaptação; as várias e sangrentas brigas – nas quais ou se envolveu ou testemunhou − por uma coberta de jornal, um toco de cigarro, um quente de coxa, um pouco de espaço e outras sem sequer propósito.
Rememora, também, o longo exercício para habituar-se às pancadas. Mas tais lembranças vão longe, perdidas no rodopio da saia do tempo. Foi apenas o começo. Rápido, aclimatou-se à nova vida e fez-se respeitado e temido pela força do soco e voz. O que o elevou ao cargo de “xerife”. Para tanto, muitos dentes rolaram; muitos ossos quebraram.
Hoje, a prisão é seu lar: sente-se peixe no aquário.
Pensa: cada barra dessas grades que me cerceiam é parte de mim, prolongamento de meus dedos. O suor de minhas mãos lhes imprimiu as marcas da amizade. Somos íntimos: carne e unha. São a cortina que teci como defesa. Aqui, estou seguro! Não temo nada. Tenho o necessário: comida, água e teto. Todas as horas me pertencem. Gasto-as como bem quiser. Não preciso prostituir-me num emprego qualquer e ver a fome mensalmente chegar, sub-reptícia, no envelope de pagamento.
Fica inerte toda a tarde, prostrado como pastel de bar. Um grande perigo, a liberdade, paira no ar. Fuma além do normal. Entre uma e outra tragada, seus dentes mantém-se ocupados, remoendo e triturando conjeturas sombrias. Refugia-se nas espirais de fumaça que do cigarro evolam. Evita contato com os demais.
A noite o surpreende assim. A lua atinge em cheio seu rosto, iluminando-lhe o mutismo e a preocupação até o momento em que seus olhos não mais conseguem suster-se e abaixam as venezianas das pálpebras, esgotadas de interrogações, fazendo-o imergir na negritude recém-fabricada: o sono chegara.
Durante a madrugada, acorda sobressaltado. Acende novo cigarro. Nos breves instantes em que a chama domina a escuridão, espantando-a, fita o companheiro que contíguo a ele ressona, tranqüilo. Sente certa pitada de inveja.
Apaga o cigarro com breve cuspidela e, com dois dedos, o arremessa à privada, no fundo da cela. Para tanto, não precisa de luz ou de olhar: o cheiro a identifica e faz com que seja localizada, em toda a sua geografia fétida, mesmo em trevas. Seu odor não mais o incomoda. Incorporou-se ao cotidiano.
Torna a envolver-se nos lençóis do desespero, retoma o sono bruscamente interrompido. Sonha: estava livre. Era uma segunda-feira e levantara cedo para procurar emprego. No banheiro, lava rápido o rosto estremunhado pela noite. A água gélida acorda os filetes de preguiça ainda escondidos sob as bochechas. Veste-se apresentavelmente. Toma o café de um gole só, mal sentindo o gosto da cor quente. Com os classificados debaixo do braço, sai à rua. Corajosamente.
No ônibus, haja vista os vários anos de prisão, custa a entender o dialeto falado pelo trocador.
Todos os locais assinalados lhe batem com a porta à cara. Sente-se enxotado: puta velha desgastada e impertinente, sem maior serventia. De inopino, surge uma ave que − ameaçadora − tenta bicar-lhe os olhos, enquanto as grandes asas roçam, agitadas e barulhentas, seu rosto pálido de espanto − ruído que o faz gelar o coração. Amedrontado, resolve voltar para casa. No trajeto, ônibus completamente lotado, empapa a camisa com o suor nervoso e malcheiroso. Sente-se mal e envergonhado.
O sol molha os cabelos anelados e negros de X − cuja sombra, num átimo, levanta-se da parede e, sobressaltada, grita: “Não, não posso permitir que esse pesadelo frutifique!”
Os companheiros assustam-se com o súbito som emitido por X – normalmente não afeito a tais emulações.
No decorrer da manhã, o carcereiro formalmente o informa de que será liberto no dia seguinte. Sarcástico, acrescenta: “O que é bom dura pouco, irmãozinho... Vou sentir saudades!” − e dá breve gargalhada, batendo, várias vezes, com o cassetete na palma da própria mão esquerda. Hábito profissional.
X sabe que cada minuto é precioso. Sente o peso da liberdade que, paulatina − bordada em cada volta dos ponteiros do relógio −, invade-lhe o labirinto de canais arteriais e jardins de veias. Sua testa poreja inquietação.
No almoço, alimenta-se bem. Sequer deixa migalhas. Como sobremesa, acende um cigarro. Um estilhaço de sorriso, fugaz, de quando em vez ilumina-lhe o vão dos olhos, abrindo as porteiras das pupilas.
Por volta das 17 horas, acena para o carcereiro, solicitando fogo. Do lado externo das grades, esse, solícito, aproxima-se para oferecer o isqueiro. Um sorriso amadurecendo na face bonachona e avermelhada. X leva a mão ao bolso.
Tardiamente, o agente percebe que algo lhe penetra o pescoço, com extrema violência e rapidez. Emite roufenho grito, subterrâneo e tenebroso. Não tem tempo para entender o ocorrido.
X, com o braço esquerdo e forte, comprime o corpo do outro contra a grade, enquanto, com o direito, mantém-se ocupado em realizar pequenos movimentos circulares − praticamente imperceptíveis a um observador desatento. O sangue flui abundante, enodoa a camisa e o rosto de ambos e dá às barras nova coloração.
Solto, o corpo, estertorante, debate-se em espasmos violentos e incontroláveis. Os policiais acorrem pressurosos, gritando de ódio fardado. Demasiado tarde, porém. Os olhos do carcereiro, abertos e congestionados pelo pavor, pelo entrever da visita indesejada, não mais percebem o círculo de pessoas formado em torno. A farda, tão estimada, bóia num imenso mar vermelho, à espera da coagulação que não tardará a ocorrer e acarretará, no mínimo, uma crosta de perjúrio sanitário.
Furiosos, vários guardas invadem a cela. X não ameaça nenhum gesto de defesa enquanto o espancam com a coronha das armas e o bico lustroso das pesadas botas negras. Entre um hematoma e outro, lembra de quando criança uma surra do pai. Volve ao presente. Agora, não mais lhe dói na pele o gosto das porradas surdas. Sabe, tem a plena consciência, de que são o preço de sua liberdade. Não mais precisará sair. Inebriado em tal certeza, só então desmaia.

MAQUINO, 10.VII.77

PALAVRAS



A poluição boiava no ar. A multidão andava apressada sob o dia claro, sem prestar atenção à natureza que a circundava. A sombra opressora dos cubos de concreto esmagava a todos.
O homenzinho, de cabelos verdes, parou na esquina, dirigiu-se a um transeunte e, tocando-lhe o braço, perguntou polidamente:
Xptlgd&exp”xrhj. xsfn+w=lg} afüirz?
Recebeu apenasmente um olhar de susto, seguido de total indiferença. O transeunte retirou-se apressado, sequer olhou para trás.
O homenzinho repetiu o gesto e o diálogo com outra pessoa. Idêntica reação. Já nervoso, fez sinal a um táxi e à porta exclamou:
Arthl”gczy xr+nwftb[ wes4$fytilqkt!
O motorista deu sonora gargalhada e, com dois palavrões e uma arrancada brusca, rápido retirou-se.
O homenzinho, então, transformou-se num albatroz e voou até outro local. Lá, as pessoas eram muito brancas, apesar do forte sol, tinham botões nas costas, cabelos louros e estrelas roxas sobre a pele escamada. Igualmente, ninguém o entendeu.
A seguir, rumou para outra região, onde os homens tinham a pele vermelha, exceto no rosto, amarelo e com apenas um olho. Foi novamente incompreendido.
Já em forma humana, entrou numa lanchonete automática e pediu:
Gv)#lamy nud}tzotg+ ats}$rbkh/yb”wz!
Não recebeu a mais-mínima atenção.
Furioso, abriu um maço de finos cigarros e mastigou-os lentamente, para melhor sentir o gosto do filtro de aniz. As pessoas a seu redor passavam alheias, com sobretudos sisudos e semblantes idem, e ele percebservou que em nada elas diferiam. Eram sempre as mesmas, embora tivessem outros hábitos e culturas.
Ruminando tais considerações encontrou-se, sem o perceber, no metrô. E admirou-se do grande número de rostos cansados, prematuramente cansados. Sentiu-se imensamente feliz quando uma criança lhe sorriu, mas a mãe logo a admoestou. Com ar contrariado, de quem sofrera verdadeiro insulto.
Meditativo, o homenzinho começou a andar por entre os trilhos. Um guarda nas imediações rumou em sua direção.
Ao vê-lo, o homenzinho disse, atropelando as palavras:
Wof$bhlzaqs%dh hawnblh44$tryzf adz1?
O policial não deu resposta e, com o dedo em riste e olhos ameaçadores, o expulsou do local, não sem antes preveni-lo do risco de prisão e cutucá-lo, fortemente, com o cassetete.
Cabisbaixo, sentindo a angústia de estar acompanhado, cercado de pessoas e no entanto terrivelmente só, o homenzinho retirou-se. Imerso em si próprio, andou sem meta pelos quarteirões até que deparou com uma aglomeração na esquina. Todos riam. Atraído, foi ver do que se tratava. Era uma exposição dos efeitos do napalm em cobaias humanas.
Desiludido, continuou seu errante trajeto até que teve a atenção desperta por uma placa de bronze, ao lado da elegante porta de vidro fumê:

BIBLIOTECA


Entrou, dirigiu-se às estantes, reuniu todos os dicionários que conseguiu localizar e, para espanto geral, ateou-lhes fogo, sorrindo mansamente.

MAQUINO, 18.V.71


A MOEDA


Era um rapaz só. Morava numa pensão vagabunda, verdadeira cabeça-de-porco, com eterno cheiro de gordura – nas paredes entranhado, como espessa capa.
Trabalhava numa tinturaria. Uma noite, após o expediente, caminhava, os olhos escorregando na calçada, quando na penumbra viu um brilho redondo e metálico, contrastando com o negrume do asfalto.
Abaixou-se e a apanhou. Era uma moeda. Estranhou seu forte brilho, mas a guardou.
Rumou ao quarto. Subiu as escadas semipodres de madeira. Sentiu no rosto o odor forte, ao qual já se acostumara. Abriu a estreita porta azul e entrou no pequeno espaço. Exíguo. Mal cabiam a cama antiga e o alquebrado armário envelhecido. Olhou para o vaso de plantas, pequeno também, que já ali existia desde quando para lá mudara – e que, inconscientemente, conservara.
Súbito, ouviu vozes e agitação à rua.
Chegou à janela, mas nada viu. Contudo, no debruçar-se ao peitoril, intentando melhor visão, a moeda caiu do bolso da camisa. Ele não notou o movimento furtivo. Pouco depois dormia pesadamente.
Mal tocou o vaso, a moeda infiltrou-se na terra e dentro em pouco crescia, célere, um pé-de-moedas. Que cada vez mais se desenvolvia. Seus galhos, como tentáculos, conquistam, rápidos, a restrita geografia. Irrompem então sobre o corpo adormecido. Os primeiros, penetram-lhe nas narinas e ouvidos. Acorda assustado. Tenta gritar, mas outro invade-lhe a garganta, ceifando na fonte o som. Asfixiando-o. Debateu-se, debalde.
Dentro em pouco dormia, outro sono porém.
Após o ato, a já agora árvore estagnou seu processo evolutivo.
Pela manhã, notando que seu inquilino não saíra para o trabalho, a proprietária abriu a porta do quarto e deparou com a cena. Era realmente muito estranha. Mas a quantidade de moedas que pendiam amenizou-lhe o choque. Recolheu-as. Assim como o corpo, mais tarde, ao cemitério.
De tudo, restou apenas um pedaço de papelão sujo, posto em local visível para o exterior e onde, em grandes letras vermelhas, lia-se:
ALUGA-SE QUARTO. RAPAZ SOLTEIRO.

MAQUINO, 6.III.73

POEMA QUASE FILOSÓFICO

(dedicado a Iara Klein – brother special)

Querida amiga,
POPPER esforços.
Obter o BACHELARD é importante mas,
DANTE o todo peso da filosofia,
coisa ESPINOSA, bem sei,
não vale a pena ficar LOCKE ou ter SCHILICK.
Não lhe quero ver DEGÉRANDO.
Para recarregar as baterias,
pegue um PAINE bem fresquinho,
unte-o com MONTAIGNE e, adicionalmente,
coloque uma bela fatia de BACON.
Como acompanhamento, sugiro uma SRAFFA
do bom vinho TOCQUEVILLE.
MARX cuidado para não se embebedar.
A seguir, DESCARTES qualquer prurido de bom-senso.
Vista um confortável jeans LÉVI-STRAUSS,
ponha um ADORNO, se desejar,
e HOBBES um tempo dos estudos pra espairecer.
Alugue um CONDILLAC importado, das antigas,
e ao dirigir KANT a plenos pulmões
ou apenas SAUSSURE a letra pra você mesma.
Dê uma VOLTAIRE,
SARTRE na frente de um boteco
(indico o CAMPANELLA ou o HABERMAS, pela excelente vista)
e tome um SCHOPENHAUER bem gelado e com pouca espuma.
Se sentir-se MALINOVSKIamente tranqüila,
e se for conveniente,
xingue os FEDERALISTAS
dê um arroto (OCKHAM)
e rasgue o título de eleitor.
Se as coisas ficarem RUSSELL,
não DEWEY mole.
Adote uma postura socrática
e indague: “DURKHEIM vocês estão falando?
Vocês sabem com KLEIN lidam?”.
Peça a conta pro DIDEROT e
mande logo TOMÁS DE AQUINO
ou THOMAS MORE (caso haja crianças por perto...).
Se, mesmo assim, ainda rolar um FREGE,
saia de sua soberana elegância e fale simplesmente:
“Não FREUD!”.
Qualquer coisa, COMTE comigo...
MAQUINO 7. XII.05

7 DE SETEMBRO (microconto)


Nesse dia, para comemorar civicamente, cumpria a velha rotina: tomava todas, fumava todas, cheirava todas e saía por aí dando bandeira e cagando e andando − que nem os cavalos do desfile militar.
MAQUINO, 7.IX.07

ANJOS DA GUARDA


Luna (brown)
Ozzy (black)

MAR


Só um louco,
ante o mar,
não tem a consciência
da pequenez,
da infinita
e enorme
pequenez
do ser humano
(tão presunçosamente grande!)

MAQUINO, 23.XI.75

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

DIGRESSÕES DISLEXICOLÓGICAS: B

BABABI – orgasmo de velho gagá
BABAÇU – opção sexual
BABA-DE-MOÇA – excitação de adolescente virgem
BABADINHO – cueca em final de baile
BABADOURO – olhar vitrine de joalheria
BABAU – foi-se
BABISMO – movimento religioso de anciãos decrépitos e catarrentos
BACACU – animal que trabalha em circo e está sempre meio sujo
BACAMARTE – gaúcho aterrisando em outro planeta
BACHIANO – reclamano
BACILAR – afrouxar, tremer, oscilar
BACINETA – pequeno sino gaúcho
BACO – deus do vinho
BAÇO – não vou nessa rodada
BACONISTA – humilde atendente
BACORINHA – órgão sexual feminino
BACTÉRIO – cemitério de microrganismos unicelulares
BACUBIXÁ – câncer no ânus
BAÇULA – filha mais nova
BACULINO – gênero sexual
BACUPARI – tira a mão da minha bunda
BACUPIXÁ – grafitar os fundos da cueca
BACURUBU – bunda fétida
BADALÃO – som de sino de igreja
BADEJO-FERRO – passei-lhe a vara
BADEJO-SABÃO – peixe escorregadio
BADIO – desocupado
BADIO-DE-PÉ-RACHADO – desocupado e bebum
BAFÔ – rei da festa
BAFO-BAFO – hálito de gago
BAGAÇADA – completamente amarrotada
BAGADA – erro estúpido
BAGALHÃO – cocô enorme
BAGEAR – andar em Bajé
BAGOADO – chateado
BAGRINHO – criança esquálida
BAH – expressão de gaúcho
BAHAÍSMO – religião dos Filhos do Rio Grande do Sul
BAIÁ – apupar em comício
BAIACU – prostituta muito usada
BAIANIDADE – preguiça
BAIÃO-DE-DOIS – forró conjugal
BAILARECO – festinha chinfrim
BAILAR – baile caseiro
BAILARICO – baile da elite
BAILARINO – dançarino com bom humor
BAIONESA – título nobiliárquico
BAITOLA – gauchinha ingênua
BAIXÃO – amor desmedido e rasteiro
BAIXARIA – anã sorridente
BAIXO-ALEMÃO – anão quiromante
BAIXO-CONTÍNUO – empregado muito pequeno
BAIXO-LATIM – linguagem de puta
BAIXO-RELEVO – segurança de baile infantil
BAIXOTA – órgão feminino de gaúcha

DIGRESSÕES DISLEXICOLÓGICAS: F



FABELA – favela com maravilhosa vista para o mar
FABRICADOR – torturador
FACHO – dou conta
FÁCIES – coisas que não exigem prévia experiência para serem feitas
FACILMENTE – pessoa que mente de maneira compulsiva
FACISTOL – simpatizante do fascismo
FACOTE – pessoa extremamente franzina
FAC-SÍMILE – gêmeo univitelino
FACTÓTUM – fabricante de objetos totêmicos
FACTURA – osso quebrado
FAÇUDO – sujeito metido a façer tudo
FÁCULA – brilhante e caro advogado de acusação
FACULAR – meter a faca
FACULTATIVO – bichinha recém-recuperada de cirurgia localizada
FACÚNDIA – crime abominável, por arma branca
FADADO – nota musical gratuita
FADÁRIO – berçário de fadas
FADE-OUT – cai fora
FADIGA – pronuncie a nota
FAIA – erro
FAISÃ – dondoca anfitriã
FAISÃO – o marido da faisã
FAÍSCA – utilizar a música como armadilha
FAIT DIVERS – motoristas de frete
FALÁCIA – Companhia da Voz, poderosa multi
FALACROCORACÍDEO – bate-papo animal
FALACROSE – pessoa com mediano defeito de pronúncia
FALADA – mulher que produz curiosidade
FALANSTÉRIO – Ministério da Palavra
FALASTRÃO – pessoa que fala muito palavrão
FALATÓRIO – local de conversas
FALA-VERDADE – coisa atualmente difícil
FALCÍPEDE – usuário de perna mecânica
FALCO – talco falsificado
FALCONETE – cotonete paraguaio
FALDA – fralda com buraco
FALIDO – nota constante da partitura
FALOPIANO – órgão sexual com teclas
FALOTREMO – êxtase total
FALQUEJAR – não ter forças pra ir em frente
FALSA ERVA-DE-RATO – má conha
FALSA-TIRIRICA – simulação sexual
FALSETE – carta falsamente duplicada
FALSIDADE – adulterar o ano de nascimento na carteirinha estudantil
FALSÍDICO – advogado de defesa
FALSIFICAR – relação amorosa de baixa qualidade
FALSO-DORSO – dromedário vendido como camelo
FALSO-PARATUDO – pessoa absolutamente não-confiável
FALSO-PLÁTANO – imitação de árvore nativa da América do Norte, Europa oriental e Ásia, caracterizada pelo corte descamante e grandes folhas decíduas
FALSO-ROSTO – pessoa com dupla personalidade
FALSO-TÍTULO – diploma falsificado
FAMALIÁ – coisa meio conhecida
FAMA VOLAT – o poder é volátil
FÂNERO – fã de Nero
FANFÃ – adorador incondicional
FANFARRA – doido por uma festa
FANFARRONADA – apreciador de farofa com macarronada
FANGUE – gangue de fãs
FANICAR – ter relação sexual com a(o) fã
FANTIL – muito criança
FARAD – será feito
FARDÃO – peso difícil de suportar
FARFALHA – erro de gago
FARINHA-DE-PAU – pênis ralado
FARMACODEPENDÊNCIA – hipocondria
FARMACODINÂMICA – o modus operandi da farmácia
FARMACOGRAFIA – a letra do farmacêutico
FARSA – execute; proceda; realize
FARTAR – escassez de alguma coisa; carência
FARTE – enfarte leve, sem maiores conseqüências
FASCES – rostos
FASCINADOR – aptidão trabalhista necessária para a vaga de torturador
FASÍMETRO – instrumento para medir a capacidade de se fazer algo
FASMA – falso fantasma
FAST-FOOD – motel barato, de beira de estrada
FASTIO – irmã da mãe que bianualmente dá à luz crianças do sexo masculino
FATAL – nota musical que se acha o máximo
FATALIDADE – período com início a partir dos 90 anos
FATA MORGANA – entidade fantasticamente preguiçosa, sempre morgando
FATIA-DE-PARIDA – placenta
FATILOQUENTE – sexo oral
FATIOTA – patriota pobre
FATO-MACACO – ‘quebra-galho’
FATORAR – ganhar excelente quantia
FATURÁVEL – corruptível
FAUCE – rosto machucado
FAUTEUIL – posição sexual (à francesa)
FAVA-CONTRA-O-MAU-OLHADO – planta repelente
FAVA-DE-ROSCA – coisa complicada
FAVA-DO-BREJO – garota caipira
FAVISMO – corrente filosófico-niilista que recomenda “mandar tudo às favas”
FAVÔNIO – favor absolutamente inesperado e surpreendente
FAVORECEDOR - torturador
FAVORECIMENTO – dar o material necessário para a consrtrução
FAXINAR – mandar um fax
FAXINEIRA – operadora de fax
FAZ-DE-CONTA – promessa de político
FAZEDOR – qualidade intrínseca às pessoas extremamente sádicas
FAZEDOURO – garimpador
FAZ-TUDO – puxa-saco
FEBEU – coisa mal cheirosa
FEBO – sabonete comercialmente industrializado
FEBRICITANTE – excitantemente quente
FEBRÍCULA – febre localizada
FECALÓIDE – pessoa que só tem merda na cabeça
FECHA-BODEGAS – profissão oficialmente não legitimada
FECHA-FECHA – zíper
FÉCULA – ato de sentar-se na privada
FECULENTO – pessoa que demora demais para fazer cocô
FEDEGOSO – batina de padre de cidadezinha de interior
FEEDBACK – faça o ‘base’
FEIJÃO-BRAVO – alimento valente, que luta para não entrar na panela
FEIJÃO-CARETA – pra ser comido no escritório
FEIJÃO-CASADO – só vai pra panela se acompanhado
FEIJÃO-DE-CORDA – alimento proibido em casa de enforcado
FEIJÃO-DE-FRADE – o predileto em conventos e congêneres
FEIJÃO-DE-METRO – difícil de ser guardado na despensa
FEIJÃO-DE-ROLA – opção alimentar preferencial de boiolas
FEIJÃO-DOS-CABOCLOS – prato servido nos melhores centros de umbanda
FEIJÃO-FAVA-BRAVO – da mesma família do Feijão-bravo, porém ainda mais perigoso e destemido pois não pode ser jogado às favas
FEIJÃO-FRADINHO – ver Feijão-de-frade
FEIJÃO-MANTEIGA – deve ser comido rapidamente, pois derrete no garfo
FEIJÃO-MULATINHO – o preferido pelas passistas de escolas de samba
FEIJÃO-ORÓ – aquele que você ora para conseguir engolir
FEIJÃO-TREPADOR – iguaria oferecida em motéis como estimulante sexual
FEIJÃO-TROPEIRO – o preferido dos condutores de tropa
FELDSPATO – ave imunda
FEL – antônimo de mel
FELINAMENTE – cérebro de gata
FELIZMENTE – cabeça de bem com o mundo
FÉMICO – que leva fé no macaquinho
FEMINELA – ter a certeza de que vai conquistar a fêmea
FENCHONA – mulher macho e braba, que “fecha o tempo”
FENDIMENTO – corrimento na fenda
FENFÉM – som de buzina de carro de gay
FENÍCIO – colocar fé em alguma coisa
FENICÓPTERO – meio de transporte aéreo para fênix
FENOCÓPIA – xerox de alimento animal
FENO-GREGO – ração de cavalos helênicos
FENOLOGIA – estudo do feno
FENOTEXTO – redação cavalar, estúpida
FENOTIAZINA – lanche da parente pouco inteligente
FERACIDADE – jardim zoológico
FERROMAGNETISMO – atração por homens
FERRO-VELHO – pênis de ancião
FESTA-DE-BANDEIRA – aniversário de maconheiro
FESTAROLA – lua-de-mel
FESTOADO – pronto pra ir à festa
FESTUCA – festa mixuruca
FEZES – plural de fez
FIABILIDADE – talento para fiar
FIADILHO – trocadilho “afiado”, bem feito
FIAT LUX – caixa de fósforos
FIBRILAR – controlar a casa com mão firme; ter energia
FIBROSE – doença sexualmente transmissível, provoca perda de energia sexual
FICÁCEO – parente que vem para passar uns dias e vai ficando, ficando...
FICÇÃO – fricção malfeita, incompleta
FICELA – componente do cinto, o que o faz prender
FICOTERAPIA – paciente que nunca recebe alta
FÍCUS – antônimo de vou
FIDEICOMETIDO – 'sair do armário'
FIDELÍSSIMO – castrista; pessoa extremamente fiel a Fidel
FIDÚNCIA – confusão familiar
FIFA – carinhosa abreviatura de filha
FILAÇA – fila muito grande
FILÁCTICO – fila do leite
FILARGÍRIA – apossar-se de linguagem de determinado grupo social
FILICITE – congratule; cumprimente
FILIGRANA – ato de pedir dinheiro emprestado
FILÍPICA – coisa de bicha pobre
FILISTEU – exame de DNA positivo
FILOBRÂNQUIO – recém-nascido com pele muito clara
FILOCÍNICO – filho de deputado
FILÓIDE – pessoa que tem o hábito de filar coisas
FILUSTRIA – luminária rococó da irmã da mãe
FIM-DE-RAMA – filho temporão; “última gota”
FINALIDADE – dia da morte
FIRMÃ – firma familiar
FIRMADOR – filmador de quinta categoria
FIRMIDÃO – ganhar uma empresa
FISICULTURISMO – exercitar-se numa biblioteca
FISIOGNOMONISTA – ter cara de duende
FISIOGRAFIA – esboço do rosto
FISIOPATIA – sobrinho “saradão”
FISSÃO – confissão parcial
FITÁCEO – olhada poderosa
FITOGÊNICO – pessoa que sai bem nas fotos
FITÓGRAFO – fotógrafo inexperiente
FITOLOGIA – estudo do olhar
FIXISMO – arte de pregar pessoas na cruz
FLÁ – abreviatura, carinhosa, de flato
FLABELADO – flamenguista favelado
FLABELO – time em dia de grande exibição
FLAGELAÇÃO – ficar no banco de reservas
FLAGELO – gelo com as cores do time
FLAGÍCIO – muito frágil
FRAJOLÉ – picolé vendido no Maracanã

Baú de osSOS virTUais (com afrocano picante tutano)