De modo esconso
− para que não percebam ou refratárias fiquem −
observo a subcutânea alma das palavras:
umas apresentam picardia implícita
altivez (im)penetrável
outras são simples como o talvez convexo
reflexo
do brinco
branco
da lua
no asfalto da rua
à esquerda do amplexo
Após intuitivo selecioná-las
rápido as apanho no ar
em certeiro bote de naja
− língua bífida ácida e ávida −
quando voejam ao alcance da mente
(tais quais velozes
semi-invisíveis e escorregadios morcegos vernaculares)
aberta ao novo
ao demente
à quebra do bizarro ovo
cristalino&bizantino
A seguir trabalho suas bordas
cutuco os nervos da raiz semiótica de seus dentes monossilábicos
escalavro as íntimas reentrâncias de suas sementes
suas instâncias últimas do entender
− ainda duras
metalizadas em seu sentido original
(não transfiguradas pela ação da poiese)
Minha meta (linguística?) é dobrá-las
dissecá-las
espancá-las por travesso
estuprá-las pelo avesso:
quebrar suas espinhas dorsais
a ponto tal que se liquefaçam
entre os lábios secos de ais
de amor&tesão coagulados
na lembrança opaca
− para que se depurem e brotem num novo florir:
semântico
romântico
consonantal
(in totum)
Desmonto-as
de suas engrenagens ocas
e ósseas
e remonto-as
num novo bric-a-brac
de prazer cosmético
dialético-estético
Esfaqueio-as
em verso público
e as vejo agonizar
na fria calçada das letras insalobras
− aos olhos dos eventuais circunstantes letrados −
em sua concretude filológica e sincrética
até o último A
sonoro
e bilabial
A seguir procedo à autópsia:
distendo-as sobre a mesa de trabalho
e com afiado bisturi recorto-as
desmembro-as
desmetabolizo-as
de seu DNA original
− passando pente fino
em suas estranhas
entranhas
arquetípicas e abissais
Intento desnudá-las
de suas pudicas
e atávicas
circunstâncias e reentrâncias
gramaticais
− por isso as fecundo com novo leiaute
pleno de células-tronco sexuais
Almejo expor suas nudezas implícitas
suas (im)purezas sub-reptícias
e assim elevá-las ao cubo de seu primevo entendimento frasal
efetivo e real
como sonho desconstruído
com simples piscar de pálpebras ansiosas
e um gemido
genital
(quase mugido
quase venial
bramido)
Quero que sangrem
como animal injustamente ferido
ou no cio
Quero que sujem
a barra do vestido
lexical
e sob medida costurado
da língua
exangue
que cicia o desejo
por ar não contaminado
Com garra
esmiúço e fuço
o caroço
da sílaba oculta
no dorso
da frase agreste
da frase peste
− aquela que não se entrega de todo à caneta
Lânguido chupo
os tutanos
malocados
nas estreitas cavidades ósseas da palavra por vir
Com fúria criativa
dessacralizo e cultivo
o tato
de sua pele alfabético-erosiva
em busca do ardor secreto
de seu lado puta
(re)torto
− aquele que permite brincar
e bolinar
as palavras com total irreverência cênica
obscena
fescenina
tanto no horto
quanto no adro
Além desse atávico lado
lúdico
lúbrico
escrevo para revolver cadáveres
insepultos
no peito
devolver imagens perdidas a seus respectivos leitos
Escrevo para extirpar as frias arestas das frases
proferidas com topete
sobre a lama
solidificada no tapete
à beira da cama
− ou do carma −
social
Escrevo para dar voz aos gritos
ceifados
nos indigentes berços
da palavra por nascer
− brutalmente abortada em cáustica saliva de indignação
por motivos alheios à sua vontade
Escrevo para desvelar o (entre)visto
mas não lido
desvendar o fato
revelar o olfato
− não o entreouvido
Escrevo para vomitar o insuportável
cruel e belo
movimento do cutelo
antes do golpe torpe
covarde
e fatal
Escrevo para resgatar a memória
de algumas das páginas para sempre perdidas
nos jardins suspensos da Babilônia
− ou esquecidas
em algum fictício
interstício
da torre de Babel
por arguto sábio com mágico anel
E para que
− por fim −
a palavra se faça elemento frasal
(bolha de sabão comunicativa na esquina do lábio
paralelo à travessa
da língua travessa)
corajoso cuspo nas asas
nas tetas
nas gretas
e lexicais e profundas
tretas
da fecunda Grande-Mãe Parole
− necessário estorvo morto e renascido a cada dia:
Phoenix litteratim est!
MAQUINO, 27.IX.07
− para que não percebam ou refratárias fiquem −
observo a subcutânea alma das palavras:
umas apresentam picardia implícita
altivez (im)penetrável
outras são simples como o talvez convexo
reflexo
do brinco
branco
da lua
no asfalto da rua
à esquerda do amplexo
Após intuitivo selecioná-las
rápido as apanho no ar
em certeiro bote de naja
− língua bífida ácida e ávida −
quando voejam ao alcance da mente
(tais quais velozes
semi-invisíveis e escorregadios morcegos vernaculares)
aberta ao novo
ao demente
à quebra do bizarro ovo
cristalino&bizantino
A seguir trabalho suas bordas
cutuco os nervos da raiz semiótica de seus dentes monossilábicos
escalavro as íntimas reentrâncias de suas sementes
suas instâncias últimas do entender
− ainda duras
metalizadas em seu sentido original
(não transfiguradas pela ação da poiese)
Minha meta (linguística?) é dobrá-las
dissecá-las
espancá-las por travesso
estuprá-las pelo avesso:
quebrar suas espinhas dorsais
a ponto tal que se liquefaçam
entre os lábios secos de ais
de amor&tesão coagulados
na lembrança opaca
− para que se depurem e brotem num novo florir:
semântico
romântico
consonantal
(in totum)
Desmonto-as
de suas engrenagens ocas
e ósseas
e remonto-as
num novo bric-a-brac
de prazer cosmético
dialético-estético
Esfaqueio-as
em verso público
e as vejo agonizar
na fria calçada das letras insalobras
− aos olhos dos eventuais circunstantes letrados −
em sua concretude filológica e sincrética
até o último A
sonoro
e bilabial
A seguir procedo à autópsia:
distendo-as sobre a mesa de trabalho
e com afiado bisturi recorto-as
desmembro-as
desmetabolizo-as
de seu DNA original
− passando pente fino
em suas estranhas
entranhas
arquetípicas e abissais
Intento desnudá-las
de suas pudicas
e atávicas
circunstâncias e reentrâncias
gramaticais
− por isso as fecundo com novo leiaute
pleno de células-tronco sexuais
Almejo expor suas nudezas implícitas
suas (im)purezas sub-reptícias
e assim elevá-las ao cubo de seu primevo entendimento frasal
efetivo e real
como sonho desconstruído
com simples piscar de pálpebras ansiosas
e um gemido
genital
(quase mugido
quase venial
bramido)
Quero que sangrem
como animal injustamente ferido
ou no cio
Quero que sujem
a barra do vestido
lexical
e sob medida costurado
da língua
exangue
que cicia o desejo
por ar não contaminado
Com garra
esmiúço e fuço
o caroço
da sílaba oculta
no dorso
da frase agreste
da frase peste
− aquela que não se entrega de todo à caneta
Lânguido chupo
os tutanos
malocados
nas estreitas cavidades ósseas da palavra por vir
Com fúria criativa
dessacralizo e cultivo
o tato
de sua pele alfabético-erosiva
em busca do ardor secreto
de seu lado puta
(re)torto
− aquele que permite brincar
e bolinar
as palavras com total irreverência cênica
obscena
fescenina
tanto no horto
quanto no adro
Além desse atávico lado
lúdico
lúbrico
escrevo para revolver cadáveres
insepultos
no peito
devolver imagens perdidas a seus respectivos leitos
Escrevo para extirpar as frias arestas das frases
proferidas com topete
sobre a lama
solidificada no tapete
à beira da cama
− ou do carma −
social
Escrevo para dar voz aos gritos
ceifados
nos indigentes berços
da palavra por nascer
− brutalmente abortada em cáustica saliva de indignação
por motivos alheios à sua vontade
Escrevo para desvelar o (entre)visto
mas não lido
desvendar o fato
revelar o olfato
− não o entreouvido
Escrevo para vomitar o insuportável
cruel e belo
movimento do cutelo
antes do golpe torpe
covarde
e fatal
Escrevo para resgatar a memória
de algumas das páginas para sempre perdidas
nos jardins suspensos da Babilônia
− ou esquecidas
em algum fictício
interstício
da torre de Babel
por arguto sábio com mágico anel
E para que
− por fim −
a palavra se faça elemento frasal
(bolha de sabão comunicativa na esquina do lábio
paralelo à travessa
da língua travessa)
corajoso cuspo nas asas
nas tetas
nas gretas
e lexicais e profundas
tretas
da fecunda Grande-Mãe Parole
− necessário estorvo morto e renascido a cada dia:
Phoenix litteratim est!
MAQUINO, 27.IX.07






































