segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

ÚLTIMO JOGO (miniconto)







Após enterrar o filho de 12 anos, vítima de bala perdida enquanto jogava futebol, a mãe, atordoada, exclama, resignada:
− Nunca penso na mão que apertou o gatilho. A bala caiu do céu!


MAQUINO, 23.XII.07

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

FRUTA PROIBIDA (miniconto)

Após morder o lingüista, o cão começou a babar perífrases verbais profusas e a tossir sinédoques chãs.
Dentro em pouco, após uma catacrese, morria em irreversível agonia assindética.
Pobre criatura…

MAQUINO, 7.XII.06

RIMA REDESCOBERTA

Auriverde tendão de minha terra
que o pára-brisa do Brasil beija e balança
Estandarte que a luz do sol soterra
as promessas melífluas da bonança

Argh!!! Essa história de rima
me desanima
tanto
que já nem sei cantar meu canto

Corta-me totalmente
a espontaneidade
− como se extirpasse um dente
em pleno centro da cidade

Reúno então todas as rimas e vomito em cima
depois as cubro com um lençol preto
e as jogo pela janela

E para que não sinta o odor do vômito na rima
pego, molho e cheiro um algodão em iodeto
a seguir, fecho a janela e apago a vela

Quando no meu trabalho aparece rima
não foi porque eu quis
apenas a palavra de baixo bolinou a de cima
e houve um encontro feliz

Sou por natureza disrítmico
por isso detesto excesso de rima:
pego-a e jogo-a num velho imã
para que meu verso fique único

Como um órfão único
e só como um sol
sem rima
ou como o idílio cínico
da menina do meu olho com um terçol
cravado em cima
da parede do meu rosto
apenas para me dar desgosto


Nas rimas existem até as classes sociais:
rimas pobres rimas ricas et cetera e tais
e rima classe média? Não há mais?

Desapareceram nos úmidos canaviais estruturais
das linguagens métrico-pluviais
estilístico-feudais
de quando menos e mais
não eram meros sinais
e ainda diziam a toda eloqüência dos uis e dos ais
contigo neguinha soluçados atrás
das roupas lá nos varais
ou das mangueiras nos quintais
ou até incrível pasmem: debaixo dos ananases
profundamente mortais
profundamente letais
das cascas dos anos-todos de eu-rapaz
de todas as minhas ânsias matinais
naturais
fecais

Todas as minhas abissais
ancestrais
lembranças das descobertas dos uis e dos ais
gravados nas tuas gengivas
helicoidais
trópico-transversais!

Nada há como escrever
versos brancos e rutilantes
como baionetas caladas
sem prender-se a nada
sem rimas
sem saladas
de regras
sem réguas
seladas
com os pré-fabricados módulos
poético-estéticos

Não quero nada
nem versos de alvenaria
nem trovas de hospedaria
nada
nada
a não ser a vontade infinita
de dizer o impossível-dizer
o não-dizível
o indivisível desdizer

E depois tornar a dormir
(as palavras penduradas nos cabides gramaticais)
nas dobras do próprio silêncio
silenciosamente prenhe de um novo porvir:

Onde os verbos
já não nasçam mortos
e já não cresçam lexicais abortos
frasais
onde os versos
sonorizem-se
verbalizem-se
semanticamente
automaticamente
na pele do próprio rosto
quando explodir o cogumelo do riso
ou quando brotar o caramelo no siso
da idade do porquê
na amígdala barroca do bebê
imberbe...

MAQUINO 13.VI.77

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

VERME



"Pisado, o menor verme se revira"

SHAKESPEARE (1564-1616) - Henrique VI. Terceira Parte, Ato II

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

FADA MADRINHA (miniconto)




Desde pequeno queria ser fada madrinha, glamorosa, do bem.
Para ajudar as pessoas, dizia.
No final da adolescência assumiu-se travesti: a ocupação que lhe permitia chegar o mais próximo de seu sonho.

MAQUINO, 26.XI.07

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

MODERNIDADE


"A televisão nao foi inventada para esvaziar as pessoas, mas é uma emanação de seu vazio"
MALCOLM MUGGERIDGE - Seleta (1966)

sábado, 1 de dezembro de 2007

9347



 9347 é o prefixo
do celular da menina
de olhar fixo
e que pinta o 7 no bar da esquina
nas noites cortantes nos pelos
da pele
morena
macia e plena
de feitos
eitos
(f)atos
&cia.

∞ Interiormente sentada na quina
         da crina
              da emoção equina
de ser desejada como uma égua
numa noite de faroeste luar

− quando no cio
                quando no ócio
                             quando no equinócio
   do leste da aurora boreal refletida nos ossos
   raspados do ansioso
   primata amor animal ∞

Divertida e assanhada
tem um ‘fraco’ a danada
que lhe quebra toda a régua
de medir até onde ir:
não pode ver uma escada
que logo
logo
quer trepar

Trepar, trepar, trepar...

Cabelos ao vento,
sem salto alto
e pés soltos no ar

A vagar...
               A vagar...
Devagar...
               De-va-gar...


Sorrindo colorido na câmera do celular

Indo e vindo
            subindo e descendo
vindo e indo
            descendo e subindo

– no topo das ondas dos negros mares
das asfálticas miragens
refletidas nos espelhos dos bares
necessários
para enfrentar o solidificado viver
no pleno rush das cidades
selvagens
dominadas pelos hodiernos
ogros
erráticos e sem escrúpulos
quer verões quer invernos
– no mais das vezes políticos logros

MAQUINO, 8.V.07

ESPERA



A dama levanta-se da água:
linda,
nua,
verdadeira alga
rediviva em forma de mulher
líquida.

De seus cabelos escorrem
escaravelhos
molhados de prazer.

Do prazer de estar
imersos
em seus encaracolados esconderijos.

Secretos, úmidos e seguros
como o interior de uma vulva
quente.

Sua presença afronta e encanta os olhos,
a mente.

Sua tristeza é ter-se apaixonado
por um ser
que não a vê.

Assim,
apenas respira o ar
da lua cheia e recém-aberta
como flor da madrugada
ou noiva na primeira noite.

E quieta,
calma e lânguida,
apesar do furor interior,
torna a imergir
para descansar da estupidez dos homens.

Em sua caverna abissal,
no fundo do fundo do mar,
repousa.

E os escaravelhos lhe fazem cafuné
nas longas melenas de cristal.

E seus olhos,
cansados da espera,
aquietam-se e espreitam
as profundezas das interrogações sem resposta…

MAQUINO, 27.VIII.06

Baú de osSOS virTUais (com afrocano picante tutano)