Auriverde tendão de minha terra
que o pára-brisa do Brasil beija e balança
Estandarte que a luz do sol soterra
as promessas melífluas da bonança
Argh!!! Essa história de rima
me desanima
tanto
que já nem sei cantar meu canto
Corta-me totalmente
a espontaneidade
− como se extirpasse um dente
em pleno centro da cidade
Reúno então todas as rimas e vomito em cima
depois as cubro com um lençol preto
e as jogo pela janela
E para que não sinta o odor do vômito na rima
pego, molho e cheiro um algodão em iodeto
a seguir, fecho a janela e apago a vela
Quando no meu trabalho aparece rima
não foi porque eu quis
apenas a palavra de baixo bolinou a de cima
e houve um encontro feliz
Sou por natureza disrítmico
por isso detesto excesso de rima:
pego-a e jogo-a num velho imã
para que meu verso fique único
Como um órfão único
e só como um sol
sem rima
ou como o idílio cínico
da menina do meu olho com um terçol
cravado em cima
da parede do meu rosto
apenas para me dar desgosto
Nas rimas existem até as classes sociais:
rimas pobres rimas ricas et cetera e tais
e rima classe média? Não há mais?
Desapareceram nos úmidos canaviais estruturais
das linguagens métrico-pluviais
estilístico-feudais
de quando menos e mais
não eram meros sinais
e ainda diziam a toda eloqüência dos uis e dos ais
contigo neguinha soluçados atrás
das roupas lá nos varais
ou das mangueiras nos quintais
ou até incrível pasmem: debaixo dos ananases
profundamente mortais
profundamente letais
das cascas dos anos-todos de eu-rapaz
de todas as minhas ânsias matinais
naturais
fecais
Todas as minhas abissais
ancestrais
lembranças das descobertas dos uis e dos ais
gravados nas tuas gengivas
helicoidais
trópico-transversais!
Nada há como escrever
versos brancos e rutilantes
como baionetas caladas
sem prender-se a nada
sem rimas
sem saladas
de regras
sem réguas
seladas
com os pré-fabricados módulos
poético-estéticos
Não quero nada
nem versos de alvenaria
nem trovas de hospedaria
nada
nada
a não ser a vontade infinita
de dizer o impossível-dizer
o não-dizível
o indivisível desdizer
E depois tornar a dormir
(as palavras penduradas nos cabides gramaticais)
nas dobras do próprio silêncio
silenciosamente prenhe de um novo porvir:
Onde os verbos
já não nasçam mortos
e já não cresçam lexicais abortos
frasais
onde os versos
sonorizem-se
verbalizem-se
semanticamente
automaticamente
na pele do próprio rosto
quando explodir o cogumelo do riso
ou quando brotar o caramelo no siso
da idade do porquê
na amígdala barroca do bebê
imberbe...
MAQUINO 13.VI.77