Fonte: Folha de S. Paulo, 31.XII.10
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Filme capta o auge dos Rolling Stones em quatro shows no Texas em 1972
Lançamento em DVD resgata shows históricos dos Rolling Stones filmados no Texas em 1972 "Ladies & Gentlemen: The Rolling Stones", finalizado em 1974, era um daqueles filmes muito comentados, mas pouco vistos. Não é mais. Acaba de sair em DVD, 36 anos depois de uma complicada e curta carreira nos cinemas americanos.
As imagens foram gravadas em quatro shows no Texas, em 1972. O palco é simples, espartano, mas o repertório é espetacular.
O grupo vinha de três discos incríveis, revigorado pela entrada do jovem e talentoso guitarrista Mick Taylor no lugar de Brian Jones.
Das 15 músicas no filme, 12 são desses álbuns. Cinco delas eram recém-lançadas, do LP duplo "Exile on Main St.": "Happy", "Tumbling Dice", "Sweet Virginia", "All Down The Line" e "Rip This Joint".
O filme usava a tecnologia Quadrasound. O áudio era direcionado para caixas acústicas nas quatro paredes das salas de exibição. Os cinemas tinham de ser adaptados para dar ao espectador a sensação de estar no meio da plateia do show.
Lançado depois de dois anos de edição, o filme fez carreira de poucos dias em sete cidades americanas.
No ano seguinte, uma edição em estéreo chegou a mais cinemas, mas fracassou. Os Stones já tinham lançado mais dois álbuns e o filme era "coisa velha".
Agora, numa revisão, o que se vê na tela é o auge da banda. Jagger e Richards estão visivelmente felizes, dominam a plateia e várias vezes dividem o mesmo microfone, numa imagem que é um símbolo do rock.
O filme fica para a história como o principal registro da passagem de Mick Taylor na banda. Com apenas 23 anos (seus colegas já eram trintões), toca uma barbaridade.
Seus solos quebram uma imagem na cabeça dos fãs, que escutavam os LPs imaginando Richards tocando.
Inevitável especular como a banda teria prolongado essa ótima fase se Jagger e Richards não "roubassem" de Taylor a música "Time Waits For No One", em 1974. Sua saída fechou um ciclo matador na vida do grupo.
LADIES & GENTLEMEN: THE ROLLING STONES
DIREÇÃO Rollin Bizzer
LANÇAMENTO ST2
QUANTO R$ 36
AVALIAÇÃO ótimo
Fonte: Folha.com/Ilustrada, 31.XII.10 - p/Thales de Menezes
O filme usava a tecnologia Quadrasound. O áudio era direcionado para caixas acústicas nas quatro paredes das salas de exibição. Os cinemas tinham de ser adaptados para dar ao espectador a sensação de estar no meio da plateia do show.
Lançado depois de dois anos de edição, o filme fez carreira de poucos dias em sete cidades americanas.
No ano seguinte, uma edição em estéreo chegou a mais cinemas, mas fracassou. Os Stones já tinham lançado mais dois álbuns e o filme era "coisa velha".
Agora, numa revisão, o que se vê na tela é o auge da banda. Jagger e Richards estão visivelmente felizes, dominam a plateia e várias vezes dividem o mesmo microfone, numa imagem que é um símbolo do rock.
O filme fica para a história como o principal registro da passagem de Mick Taylor na banda. Com apenas 23 anos (seus colegas já eram trintões), toca uma barbaridade.
Seus solos quebram uma imagem na cabeça dos fãs, que escutavam os LPs imaginando Richards tocando.
Inevitável especular como a banda teria prolongado essa ótima fase se Jagger e Richards não "roubassem" de Taylor a música "Time Waits For No One", em 1974. Sua saída fechou um ciclo matador na vida do grupo.
LADIES & GENTLEMEN: THE ROLLING STONES
DIREÇÃO Rollin Bizzer
LANÇAMENTO ST2
QUANTO R$ 36
AVALIAÇÃO ótimo
Fonte: Folha.com/Ilustrada, 31.XII.10 - p/Thales de Menezes
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
CONTARDO CALLIGARIS: Ano-novo, vida nova
Voto para o ano-novo: que encontremos jeitos de desejar sem transformar nosso desejo em obrigação
UMA LEITORA, que me autoriza a citar seu e-mail, mas prefere que seu nome não seja mencionado, pergunta: "Gostaria de saber sua opinião sobre parceiros que simplesmente somem, desaparecem mesmo, sem deixar rastro. Cancelam telefones, e-mail, conta no Skype e somem, sem se despedir, sem nem mesmo um MSN. E não falo de um relacionamento de alguns dias, mas de anos. Oito para ser mais precisa. Nem falo de um adolescente, mas de um homem de 57 anos.
Ele foi trabalhar no Oriente Médio, num alto cargo, a empresa fechou e ele desapareceu. Não morreu, não foi sequestrado por terroristas. (...) O que leva alguém a agir assim? Obrigações econômicas não estão em jogo".
A cada ano, mundo afora, há centenas de milhares de pessoas que somem e nunca mais dão notícias a familiares e amigos.
Quando se trata de adultos sem obrigações jurídicas (dívidas ou pensões alimentícias, por exemplo), a polícia descobre, eventualmente, o novo paradeiro ou a nova identidade de quem sumiu, mas só o próprio desaparecido pode autorizá-la comunicar estas informações aos parentes e amigos de sua vida, digamos assim, "anterior".
No passado, nesta página, se me lembro direito, já assinalei o fato de que, estranhamente, em geral, quem some não vai longe: acaba numa cidade parecida com a que ele abandonou, a poucos quilômetros de distância. Também, na maioria dos casos, o desaparecido reconstrói uma vida próxima da vida da qual ele fugiu ─ encontra um ofício parecido com o que ele praticava e cria uma família similar à que deixou.
Essa "constância" nos surpreende porque imaginamos que, em regra, alguém suma por querer uma vida nova. Por alguma razão, o caminho gradativo, que consistiria em se despedir, fazer as malas, fechar as contas etc., pareceria impraticável ou insuficiente aos olhos de nosso fugitivo: talvez ele tenha esperado demais e sua paciência excessiva (para com os outros ou para consigo mesmo) exija, de repente, uma explosão, um corte sem conversa alguma. De qualquer forma, supomos (ingenuamente) que, se alguém decidiu sumir, foi para mudar radicalmente.
De fato, como disse antes, os desaparecidos acabam reconstruindo uma vida parecida com a anterior ao seu sumiço, e isso nos leva à conclusão oposta: talvez quem some não queira mudar de vida ─ então, ele some por quê?
Conheci pouquíssimos que sumiram, mas conheço muitos que expressam a vontade de sumir. Todos explicam sua vontade da mesma forma: trata-se de fugir de exigências impossíveis de serem satisfeitas. Mas, cuidado: "Eles me pedem demais" é a tradução projetiva de "eu me peço demais". Quem foge das exigências do mundo está quase sempre fugindo das exigências que seu próprio desejo lhe coloca.
Vamos agora ao que acontece com quem decide sumir apenas para alguém ─ um familiar (se não a família inteira) ou um parceiro.
Às vezes, é justificada a sensação de que, sem um sumiço, uma relação se eternizaria pela simples dificuldade de qualquer um dos dois reconhecer que acabou. Onde está a covardia, e onde a coragem? Não sei. Talvez haja covardia em não conseguir declarar que um amor terminou, assim como talvez haja covardia na incapacidade de escutar essa declaração. Há a covardia de quem some e também de quem sobra, quando ambos parecem precisar do sumiço de um dos dois para aceitar que a história chegou ao fim.
Há covardia também em fingir que a relação continua, quando ela já morreu. Alguém, aliás, pode sumir para fugir de sua própria covardia, que o mantém calado, ou para fugir da covardia do outro, que não quer ouvir uma frase de despedida.
Seja como for, muitas vezes, alguém acaba uma relação e some porque o que era (e talvez ainda seja) seu desejo se transformou numa exigência intolerável.
Funciona assim: um dos jeitos de nos autorizarmos a querer o que desejamos consiste em transformar nosso desejo numa obrigação. Desejar é mais fácil (embora menos alegre) quando imaginamos desejar a mando de algum outro. O problema é que esse desejo, facilitado por ser mandatário, logo aparece como uma exigência da qual, eventualmente, vamos querer fugir.
Meu voto para o ano-novo: que nos preocupemos menos em mudar nossas vidas e encontremos jeitos de conseguir desejar o que já desejamos sem transformar nosso desejo em obrigação.
Fonte: Folha de S. Paulo, 30.XII.10
UMA LEITORA, que me autoriza a citar seu e-mail, mas prefere que seu nome não seja mencionado, pergunta: "Gostaria de saber sua opinião sobre parceiros que simplesmente somem, desaparecem mesmo, sem deixar rastro. Cancelam telefones, e-mail, conta no Skype e somem, sem se despedir, sem nem mesmo um MSN. E não falo de um relacionamento de alguns dias, mas de anos. Oito para ser mais precisa. Nem falo de um adolescente, mas de um homem de 57 anos.
Ele foi trabalhar no Oriente Médio, num alto cargo, a empresa fechou e ele desapareceu. Não morreu, não foi sequestrado por terroristas. (...) O que leva alguém a agir assim? Obrigações econômicas não estão em jogo".
A cada ano, mundo afora, há centenas de milhares de pessoas que somem e nunca mais dão notícias a familiares e amigos.
Quando se trata de adultos sem obrigações jurídicas (dívidas ou pensões alimentícias, por exemplo), a polícia descobre, eventualmente, o novo paradeiro ou a nova identidade de quem sumiu, mas só o próprio desaparecido pode autorizá-la comunicar estas informações aos parentes e amigos de sua vida, digamos assim, "anterior".
No passado, nesta página, se me lembro direito, já assinalei o fato de que, estranhamente, em geral, quem some não vai longe: acaba numa cidade parecida com a que ele abandonou, a poucos quilômetros de distância. Também, na maioria dos casos, o desaparecido reconstrói uma vida próxima da vida da qual ele fugiu ─ encontra um ofício parecido com o que ele praticava e cria uma família similar à que deixou.
Essa "constância" nos surpreende porque imaginamos que, em regra, alguém suma por querer uma vida nova. Por alguma razão, o caminho gradativo, que consistiria em se despedir, fazer as malas, fechar as contas etc., pareceria impraticável ou insuficiente aos olhos de nosso fugitivo: talvez ele tenha esperado demais e sua paciência excessiva (para com os outros ou para consigo mesmo) exija, de repente, uma explosão, um corte sem conversa alguma. De qualquer forma, supomos (ingenuamente) que, se alguém decidiu sumir, foi para mudar radicalmente.
De fato, como disse antes, os desaparecidos acabam reconstruindo uma vida parecida com a anterior ao seu sumiço, e isso nos leva à conclusão oposta: talvez quem some não queira mudar de vida ─ então, ele some por quê?
Conheci pouquíssimos que sumiram, mas conheço muitos que expressam a vontade de sumir. Todos explicam sua vontade da mesma forma: trata-se de fugir de exigências impossíveis de serem satisfeitas. Mas, cuidado: "Eles me pedem demais" é a tradução projetiva de "eu me peço demais". Quem foge das exigências do mundo está quase sempre fugindo das exigências que seu próprio desejo lhe coloca.
Vamos agora ao que acontece com quem decide sumir apenas para alguém ─ um familiar (se não a família inteira) ou um parceiro.
Às vezes, é justificada a sensação de que, sem um sumiço, uma relação se eternizaria pela simples dificuldade de qualquer um dos dois reconhecer que acabou. Onde está a covardia, e onde a coragem? Não sei. Talvez haja covardia em não conseguir declarar que um amor terminou, assim como talvez haja covardia na incapacidade de escutar essa declaração. Há a covardia de quem some e também de quem sobra, quando ambos parecem precisar do sumiço de um dos dois para aceitar que a história chegou ao fim.
Há covardia também em fingir que a relação continua, quando ela já morreu. Alguém, aliás, pode sumir para fugir de sua própria covardia, que o mantém calado, ou para fugir da covardia do outro, que não quer ouvir uma frase de despedida.
Seja como for, muitas vezes, alguém acaba uma relação e some porque o que era (e talvez ainda seja) seu desejo se transformou numa exigência intolerável.
Funciona assim: um dos jeitos de nos autorizarmos a querer o que desejamos consiste em transformar nosso desejo numa obrigação. Desejar é mais fácil (embora menos alegre) quando imaginamos desejar a mando de algum outro. O problema é que esse desejo, facilitado por ser mandatário, logo aparece como uma exigência da qual, eventualmente, vamos querer fugir.
Meu voto para o ano-novo: que nos preocupemos menos em mudar nossas vidas e encontremos jeitos de conseguir desejar o que já desejamos sem transformar nosso desejo em obrigação.
Fonte: Folha de S. Paulo, 30.XII.10
Macacos treinados são companheiros confiáveis para aqueles que precisam

Macacos-prego especialmente treinados nos EUA estão ajudando deficientes físicos com o trabalho doméstico, fazendo tarefas como retirar o lixo, buscar o telefone ou ligar o microondas. Os companheiros peludos também ajudam os paraplégicos a lidarem com a solidão
São suas mãos pequenas que tornam Minnie especialmente útil. Peludas e delgadas, com dedos finos e unhas pretas, as mãos da macaca-prego são perfeitas para abrir uma garrafa de suco ou pegar o telefone. E quando Craig Cook tem uma coceira na cabeça, Minnie vem e o coça até que ele se sinta melhor.
“Ela é mais humana do que você imagina”, diz Cook. O norte-americano de 44 anos, que é paraplégico há mais de 14 anos, passa seus dedos rígidos com carinho nos pelos de Minnie enquanto ela se aninha em seu colo, observando com curiosidade o convidado com seus olhos grandes e castanhos. Então a macaca pula e cruza correndo a cozinha do bangalô de Cook, gritando e pulando, um monte de energia embrulhada numa pelagem marrom escura.
“Impressionante, não é?”, diz Cook, com os olhos brilhando. Há seis anos ele compartilha seu bangalô em La Habra, próximo a Los Angeles, com a macaca-prego de 30 anos. Eles assistem juntos a jogos de beisebol do Los Angeles Angels na TV, ou desfrutam do sol da Califórnia no quintal. E quando Cook tem “um daqueles dias ruins”, é Minnie que consegue fazê-lo rir.
“É maravilhoso ter um animal como este em casa”, diz ele. Cook, que era engenheiro e jogava futebol americano, quebrou sua coluna num acidente de carro. Ele tem muita sorte de ter Minnie – existem apenas 45 macacos-prego como ela em todos os Estados Unidos, e Minnie é uma das melhores.
Escola de macacos
Minnie passou vários anos em treinamento no Monkey College, coordenado por uma organização de Boston chamada Helping Hands. Essa escola incomum treina os macacos para ajudarem no lar e serem parceiros de vida para pessoas com paralisia – com grande sucesso.
“Os macacos-prego oferecem independência, alegria e companhia para os beneficiários”, diz a funcionária da Helping Hands Andrea Rothfelder. “Esses animais são muito carinhosos e amorosos; muitos beneficiários dizem que é um pequeno milagre quando o macaco se muda para suas casas.”
A diretora de treinamento Alison Payne descreve o Monkey College como uma “mistura de pré-escola e zoológico”. A Helping Hands tem um total de 180 macacos, 50 deles sendo treinados em Boston. Aqui neste centro de três andares, os macacos praticam com interruptores, gavetas, garrafas e aparelhos de CD. Eles aprendem as ações primeiro numa sala com pouca mobília; depois praticam num “apartamento-escola” equipado com uma cadeira de rodas, cama, estante de livros e uma pequena cozinha.
Os treinadores ensinam aos macacos cerca de 30 comandos, incluindo “pegue” para buscar um objeto, e “lixo”, para jogar algo no lixo. “Empurre” pode significar que o macaco deve fechar a porta da geladeira, enquanto “abra” produz o inverso. A motivação para aprender as tarefas é pasta de amendoim e creme de leite em spray.
“Os macacos são naturalmente curiosos”, diz Payne. “Tentamos expandir seu espaço de atenção”. Ainda assim, os macacos também têm seu tempo de folga. Hoje Chichi e Jessica estão na sala de brincadeiras, correndo atrás de bolhas de sabão. Para sua colega de classe Tricia, é um dia ruim. A treinadora Jennifer Evans encheu a pia da cozinha com água morna e espuma de banho, e Tricia está se debatendo, esticando sua cabeça molhada para fora da pia. Alguns minutos depois, a treinadora chega para secá-la.
“Eles são muito parecidos com crianças de dois anos”, diz Payne. Na verdade, os macacos têm entre oito e dez anos, a idade ideal para condicionar e treinar, quando eles entram no Monkey College. Primeiro, eles se acostumam às pessoas, vivendo em casas de família. Depois vêm para dois a quatro anos de treinamento. Uma vez que estão treinados em casa, eles podem ir morar com uma pessoa deficiente.
Companheiros inseparáveis
Quando Cook começou sua vida junto com Minnie, vários anos haviam se passado desde a noite que arruinou sua vida. Em 12 de janeiro de 1996, o engenheiro encontrou um colega para jantar em Los Angeles. Os dois saíram do restaurante pouco antes da meia-noite. “Era uma noite agradável, e Tyler quis andar no meu conversível”, lembra-se Cook. À medida que acelerou na rodovia, o colega de Cook perdeu o controle do carro de 300 cavalos de potência. O veículo capotou e deslizou por um barranco. A coluna de Cook se partiu instantaneamente; e seu colega mal se machucou.
Cook perdeu tudo naquele dia – seu emprego; sua namorada, que logo se mudou; mas acima de tudo perdeu o controle sobre seu próprio corpo. Incapaz de se ajustar à nova vida, entrou em depressão. Mas quando um amigo ficou sabendo do Helping Hands, Cook contatou a organização e enviou um vídeo de inscrição. Alguns meses depois, Minnie entrou em sua vida.
“Quando os treinadores vieram, eles ficaram cerca de uma semana”, diz ele. “Foi só então que ela me aceitou como o novo rei”. É assim que funciona com os macacos-prego – eles vivem em grupos e escolhem seus líderes com cuidado.
Hoje, Cook e Minnie são inseparáveis. “Colher”, diz Cook e a macaca pega uma da gaveta de talheres. “Sol” ─ Minnie acende a luz. “Você pode levantar a mão?” ─ Minnie levanta o braço de seu dono, que havia escorregado do braço da cadeira. Ele usa aquela mão para operar sua cadeira de rodas.
“Minnie pode salvar minha vida”, diz Cook. Uma vez, sua cadeira de rodas ficou presa no quintal enquanto o sol se punha. Cook sabia que teria que ficar uma noite inteira sentado no escuro, congelando e se molhando, até que o enfermeiro chegasse de manhã. Ele chamou Minnie, que trouxe seu telefone. Uma hora depois, a ajuda havia chegado. “Eu fiquei com lágrimas nos olhos”, disse Cook.
“Os macacos podem ser uma corda de salvação, e a coisa mais importante de todas é a companhia que eles fazem e seu amor incondicional”, diz a diretora de treinamento Payne. “De repente você tem essa pequena pessoa macaco em casa que simplesmente acha você a coisa mais legal do mundo.”
“Eles aliviam a dor e a solidão”
Os funcionários da Helping Hands contam a história de um veterano que perdeu ambas as pernas no Iraque. “Ele diz que o macaco é o único que o aceita como ele é e que não percebe que ele não tem pernas”, diz Rothfelder. Os macacos nunca poderiam substituir um enfermeiro de tempo integral, “mas eles aliviam tanto a dor quanto a solidão de ficar em casa sozinho e também fazem algumas tarefas da casa.”
Não é nenhuma surpresa que haja uma grande demanda pelos espertos macacos-prego, mas a Helping Hands só pode fornecer entre seis e oito macacos para indivíduos paralisados a cada ano. Custa cerca de US$ 40 mil para a organização treinar um único macaco, e todo esse dinheiro precisa vir das doações. O serviço é gratuito para os pacientes.
Craig Cook pode se considerar sortudo – sua Minnie deu a ele uma nova vida. Ele se lembra claramente do momento quando a macaca pulou em seu ombro pela primeira vez, depois de cinco meses juntos. “De repente ela passou os dedos pela minha cabeça”, diz ele. “Este é o maior sinal de afeto.”
Cook estima que Minnie possa viver mais 15 anos, mas ele não gosta de pensar no que acontecerá depois. A macaca ganhou um lugar em seu coração há muito tempo.
“Minnie, você está bem?” ─ essas são as palavras que ele usará para chamar a macaca hoje à noite, depois que a enfermeira o tenha ajudado a ir para a cama. E Minnie responderá, de sua jaula na sala de estar, onde ela se enrola debaixo de um pequeno cobertor azul claro.
“E ela vai responder tut tut tut”, diz Cook. Então ele sorri e explica: “Isso significa: 'está tudo bem'.”
Fonte: UOL Notícias Internacional/Der Spiegel, 30.XII.10 - p/Philip Bethge
Tradução: Eloise De Vylder
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
NATAL (microconto)

Na UTI, solicitou ao médico, no dia de Natal, um cigarro como presente especial.
Fumou pela abertura da traqueostomia, com gosto.
A seguir, fechou os olhos e se foi, mansamente ─ como cinza jogada ao mar.
© MAQUINO, 24.XII.06
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
"Eu sou feliz porque sou Papai Noel"
Moisés Narezzi tem 81 anos e é Papai Noel há 22. Todo mês de dezembro, ele abençoa as famílias, canta para as crianças e as orienta a pedir apenas um presente de NatalQuem conhece Moisés Narezzi (foto acima) chega a pensar que o Papai Noel realmente existe. Aos 81 anos, ele guarda todas as características físicas do Bom Velhinho: barba e cabelos brancos, óculos de armação bem fina, barriga saliente e um semblante alegre e tranqüilo. Dezembro é o único mês em que trabalha – e muito! Aposentado, além de ser Papai Noel do Shopping Villa Lobos, ele participa de algumas festas no dia de Natal e está na profissão há 22 anos.
No começo, Moisés se vestia apenas para animar o Natal dos dois filhos e dos netos, que hoje são cinco. Chegava pela rua de Papai Noel com um sino em uma das mãos e o saco de presentes no outro. Depois, trabalhou como voluntário em hospitais, creches e asilos, lugares nos quais nem sempre era fácil levar alegria. "Nunca vou me esquecer da fisionomia de uma criança de 2 anos da ala de queimaduras de um hospital que visitei. Eu tinha vontade de chorar, mas não chorava, porque o Papai Noel não pode. Só deve abençoar, dar uma palavra de conforto e carinho", explica Moisés, que chorou muitas manhãs depois deste dia. Só parou quando a esposa, Rosinha, com quem é casado há 53 anos, disse que se continuasse assim ele não poderia mais ser Papai Noel.
Ele seguiu na carreira e hoje tem um guarda-roupa só com as peças que foi guardando durante os anos de trabalho. A coleção rendeu até uma fantasia para um dos netos, que foi vestido com uma roupa do avô em uma festa, com direito à barba falsa e tudo! Antes de ser Papai Noel, Moisés foi torneiro mecânico, contador, atleta e por fim trabalhou 24 anos na área de transportes de uma grande empresa.
Católico de criação, ele leva o seu personagem muito a sério e, quando conversa com as crianças, faz questão de falar do nascimento de Jesus, cantar uma canção natalina e contar a história de São Nicolau, que deu origem ao bom velhinho. "Eu procurei na internet as várias versões da história e como ela é muito longa, selecionei alguns detalhes para fazer a minha versão." Sim, o Papai Noel é conectado e tem até Orkut! Também para preservar o espírito natalino, diz a elas que é preciso escolher apenas um presente, que o Papai Noel tenha condições de comprar - os pais agradecem! E muitos se emocionam quando o Noel os chama, pega em suas mãos e abençoa toda a família com suas preces.
É esta dose extra de calor humano que faz Moisés encarnar o personagem. "Eu não precisaria fazer isso, sou aposentado e recebo ajuda dos meus filhos. Mas aqui eu tenho alegria todos os dias." Por conta da prótese que tem no joelho, ele usa um carrinho elétrico para se locomover pelo shopping, mas diz que durante a época do Natal não sente dor alguma. Mas o mais difícil da profissão não é superar os problemas de saúde. "Outro dia uma menina pequena me perguntou o que eu poderia fazer para salvar o mundo. Na hora eu não sabia o que falar! Disse que faço alguma coisa boa para as crianças, pois são elas que vão cuidar do nosso mundo no futuro."
E faz mesmo. Enquanto algumas crianças choram de medo e não querem sentar em seu colo, muitas se emocionam ao ouvir Moisés cantar com entusiasmo a tradicional canção "Sapatinho de Natal". "Esse momento, essa lágrima, me deixa muito feliz. E dá vontade que o Natal seja todos os dias." Sentado em sua poltrona verde próxima a enorme árvore de Natal da praça central do Shopping Villa Lobos, ele não cansa de dizer que é feliz porque é o Papai Noel.
Fonte: revistacrescer.globo.com, 23.XII.10 - p/Fernanda Carpegiani
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
ENTREVISTA PATTI SMITH
Ainda hoje eu tento enxergar arte com os olhos de Robert
Cantora e poeta declara que sua carreira não existiria sem o relacionamento por 22 anos com o fotógrafo Robert Mapplethorpe
Cantora e poeta declara que sua carreira não existiria sem o relacionamento por 22 anos com o fotógrafo Robert Mapplethorpe
Patti Smith interrompeu as gravações de seu novo álbum para falar sobre "Só Garotos". A seguir, os principais trechos da entrevista concedida à Folha por telefone, de Nova York.
Folha - "Só Garotos" conta uma história que acompanha você há muito tempo. Como foi o processo para escrever?
Folha - "Só Garotos" conta uma história que acompanha você há muito tempo. Como foi o processo para escrever?
Patti Smith - Eu trabalhei no livro por alguns anos. Escrevia em meus cadernos, fazia anotações, e, às vezes, relia coisas antigas, cartas que Robert escreveu. E tenho muitos diários do tempo em que era mais nova, muitos mesmo, além de artigos que escrevi, diários. E muitas vezes eu apenas... pensava. Sabe, muito de escrever é na verdade pensar, e ficava muito tempo pensando, até ter trechos completos de nossa história. Foi como montar um filme, eu queria ver o que estava escrevendo. O processo tomou muito tempo porque muitas vezes me deixava triste, é difícil escrever sobre nós mesmos.
Como selecionou as fotos e desenhos incluídos no livro?
Eu queria que tudo ficasse bem intimista. Vi muitas fotografias, mas, no fim, deixei as que mostravam apenas Robert e eu. Tenho tantas com William S. Burroughs, muitas fotos com pessoas citadas no livro, mas, buscando essa aura de intimidade, tirei fora tudo que não mostrasse eu e Robert. Meu trabalho, o trabalho dele, nós quando crianças, os dois juntos. Tentei escolher coisas que a maioria das pessoas não tinha visto.
Você e Mapplethorpe tinham um forte compromisso com a arte, desde muitos jovens, ele desenhando e você escrevendo. Mas conseguiram sucesso depois de mudanças, ele passou a fotografar e você virou cantora. Como você analisa hoje esses caminhos?
Eu ainda me surpreendo. É muito misterioso. Nunca tinha me visto como uma cantora de rock, ele nunca quis ser um fotógrafo. Um encorajou o outro em tudo, mas foi simplesmente o destino. Ainda hoje fico espantada de viajar pelo mundo e cantar, nunca sonhei com isso, não desejava esse caminho quando era jovem. Acho que tanto eu como Robert temos muitas maneiras de expressar nossa arte. Tenho certeza de que Robert, se estivesse vivo, teria deixado a fotografia para fazer outra coisa, porque me dizia que já tinha feito tudo o que queria na fotografia e estava pronto para mudar.
Quando escreveu o livro, sentiu que precisava mostrar outra visão do trabalho dele?
Eu quis mostrar às pessoas como ele era quando jovem, como ser humano e como artista. Na verdade, são minhas memórias sobre nós, e a maioria das pessoas não sabe nada sobre ele. Muito do que se pode ler sobre Robert foi escrito por pessoas que não chegaram a conhecê-lo, e é horrível tentar dizer coisas sobre a vida de um artista usando apenas sua obra. Quem lê uma biografia de Robert escrita por alguém que não o conhecia não vai perceber sua magia, seu humor e sua doçura. O que pretendi, conhecendo Robert desde que tinha 20 anos, foi fazer um retrato real.
Como você define o trabalho de Mapplethorpe?
Por ser um grande conhecedor de arte, ele é muito clássico. Quando trabalhava com temas difíceis, como o lado marginal da vida, sadomasoquismo e outros aspectos da sexualidade, não estava interessado apenas em chocar as pessoas. Ele fez uma coisa nova, mas de uma forma clássica. Eu considero Robert um artista, não só um fotógrafo. Um artista que tira fotos. Fomos privados de ver sua obra completa, ele morreu aos 42.
Você consegue imaginar sua carreira sem os anos em que viveu com ele, sem as coisas que passaram juntos?
Não. Eu não seria o que sou sem ele. Porque desde que o conheci, muito jovem, ele foi ajudante e meu confidente. Eu ainda analiso as coisas hoje pelo que aprendi com ele, enxergo obras de arte com os olhos dele. Foi muito, muito importante para mim. Eu me encontrei como artista bem nova, mas, quando me perdi, ele ficou do meu lado e me ajudou.
O que Mapplethorpe achava de sua música?
Ele gostava muito de dançar e acho que sempre esperava que eu escrevesse canções boas para dançar. Queria muito que eu chegasse às paradas, que lançasse canções de sucesso, de que as pessoas gostassem. Minhas músicas, pelo menos na América, muitas vezes não foram bem entendidas, mas ele tinha orgulho de mim.
Que tipo de música ele ouvia?
Música romântica, mas adorava mesmo o som da Motown, gostava também de Tim Buckley. Uma música que Robert adorava era "Sympathy for the Devil", dos Rolling Stones. Bom, estávamos juntos o tempo todo, então gostávamos das mesmas músicas, ouvíamos muito Janis Joplin. E a gente adorava dançar.
Quem lê o livro comenta seus encontros com celebridades como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Allen Ginsberg...
Sim, isso fascina as pessoas, esse é o retorno que eu tenho dos leitores, mas devo deixar claras algumas diferenças entre aquela época e o culto da celebridade hoje. Alguns desses nomes ainda não eram tão famosos, começavam a fazer sucesso. E é preciso lembrar que muitos moravam no mesmo hotel em que eu vivia.
Existia uma cena cultural, em que essas pessoas se encontravam em bares e lugares de shows. O importante é que era uma cena gregária, que reunia as pessoas. A cena de celebridades de hoje quer separar as pessoas, destacar quem é celebridade. Hendrix e Janis eram muito acessíveis, queriam saber o que os outros faziam. Claro que eram estrelas de rock, eram grandes, mas não eram diferentes de nós, digo, de mim e Robert.
Janis vivia no mesmo hotel, a diferença é que o apartamento dela era imenso, e o meu, bem pequeno.
"Só Garotos" é, muitas vezes, um livro que fala de sobrevivência. Você e Mapplethorpe sem dinheiro para comer, cruzando a cidade em busca de um lugar para dormir, só com a roupa do corpo. Você acha que isso foi um passo necessário em sua carreira?
Para mim foi, mas sei que não tenho o histórico habitual dos artistas. Vim de uma família pobre, para mim não era algo tão diferente não ter dinheiro ou comida. Estudei muito sobre artistas e compreendi, de um modo romântico, é verdade, que o artista tem de se sacrificar. Não é fácil achar beleza em não ter dinheiro, comida ou aquecimento no inverno, mas isso me ajudou. Apesar de tudo, eu era feliz e livre. Não ter nada pode dar a você uma estranha e boa sensação de liberdade.
Nova York não é mais tão receptiva aos jovens?
A diversidade a torna fascinante, mas, comparada ao lugar que conheci nos anos 1960, se tornou muito cara. Isso torna mais difícil que os jovens consigam se desenvolver, essa dificuldade tende a empurrá-los para outros lugares. Naqueles dias a cidade era muito mais receptivas a artistas que não tinham nada além de seus sonhos.
SÓ GAROTOS
AUTORA Patti Smith
TRADUÇÃO Alexandre Barbosa de Souza
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 39 (240 págs.)
Fonte: Folha de S. Paulo, 22.XII.10 - p/Thales de Menezes
“Tem gente que nasce rebelde. Lendo a história de Zelda Fitzgerald, identifiquei-me com seu espírito insubordinado. Lembro de passear com minha mãe olhando vitrines e perguntar por que as pessoas não chutavam e quebravam aquilo.” É com esse tom franco e irreverente ─ e ao mesmo tempo doce e poético ─ que Patti Smith revive sua história ao lado do fotógrafo Robert Mapplethorpe, enquanto os dois tentavam ser artistas e transformar seus impulsos destrutivos em trabalhos criativos.
Crescida numa família modesta de Nova Jersey, Patti trabalhou em uma fábrica e entregou seu primeiro filho para adoção, antes de se mandar para Nova York, com vinte anos, um livro de Rimbaud na mala e nada no bolso. Era o final dos anos 1960, e Patti teve de se virar como pôde: morou nas ruas de Manhattan, dividiu comida com um mendigo, trabalhou e dormiu em livrarias e até roubou os colegas de trabalho, enquanto conhecia boa parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera contestadora do famoso “verão do amor”. Foi então que conheceu o rapaz de cachos bastos que seria sua primeira grande paixão: o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de aids, em 1989.
Só garotos é uma autobiografia cativante e nada convencional. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, o livro é também um retrato apaixonado, lírico e confessional da contracultura americana dos anos 1970, desfiado por uma de suas maiores expoentes vivas.
Muitas vezes sem dinheiro e sem emprego, mas com disposição e talento de sobra, os dois viveram intensamente períodos de grandes transformações e revelações ─ até mesmo quando Robert assume ser gay ou quando suas imagens ousadas e polêmicas começam a ser reconhecidas e aclamadas pelo mundo da arte. Ao refazer os laços sinceros de uma relação muito peculiar, Patti Smith revela-se uma escritora e memorialista de grande calibre ─ e o modo como seu texto reflete a lealdade dos dois é comovente, apesar de todas as diferenças.
Pincelado com imagens raras do acervo de Patti Smith, Só garotos pode ser lido como um romance de formação de dois grandes artistas do século XX, que apostaram na ousadia, na liberdade e na beleza como antídotos à massificação ─ e contra todas as recomendações.
“O retrato mais fascinante e divertido da descolada-mas-chique Nova York do final dos anos 60 e começo dos 70.”
Crescida numa família modesta de Nova Jersey, Patti trabalhou em uma fábrica e entregou seu primeiro filho para adoção, antes de se mandar para Nova York, com vinte anos, um livro de Rimbaud na mala e nada no bolso. Era o final dos anos 1960, e Patti teve de se virar como pôde: morou nas ruas de Manhattan, dividiu comida com um mendigo, trabalhou e dormiu em livrarias e até roubou os colegas de trabalho, enquanto conhecia boa parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera contestadora do famoso “verão do amor”. Foi então que conheceu o rapaz de cachos bastos que seria sua primeira grande paixão: o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de aids, em 1989.
Só garotos é uma autobiografia cativante e nada convencional. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, o livro é também um retrato apaixonado, lírico e confessional da contracultura americana dos anos 1970, desfiado por uma de suas maiores expoentes vivas.
Muitas vezes sem dinheiro e sem emprego, mas com disposição e talento de sobra, os dois viveram intensamente períodos de grandes transformações e revelações ─ até mesmo quando Robert assume ser gay ou quando suas imagens ousadas e polêmicas começam a ser reconhecidas e aclamadas pelo mundo da arte. Ao refazer os laços sinceros de uma relação muito peculiar, Patti Smith revela-se uma escritora e memorialista de grande calibre ─ e o modo como seu texto reflete a lealdade dos dois é comovente, apesar de todas as diferenças.
Pincelado com imagens raras do acervo de Patti Smith, Só garotos pode ser lido como um romance de formação de dois grandes artistas do século XX, que apostaram na ousadia, na liberdade e na beleza como antídotos à massificação ─ e contra todas as recomendações.
“O retrato mais fascinante e divertido da descolada-mas-chique Nova York do final dos anos 60 e começo dos 70.”
Fonte: Companhia das Letras - p/Tom Carson, The New York Times
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
15 frases para lembrar os 30 anos da morte de Nelson Rodrigues
No dia 21 de dezembro fará 30 anos que Nelson Rodrigues morreu. O jornalista e escritor que criticava a hipocrisia e os pudores da sociedade deixou frases que ficaram na memória – de quem o leu após sua morte e de quem pôde conhecer seu trabalho quentinho, assim que era publicado. Aqui estão 15 frases das mais criativas – e picantes, ou ácidas.Mas, como todo mestre da literatura, muitas das frases atribuídas a ele não são, realmente, dele. Você conhece alguma assim, ou outra que queira compartilhar com os leitores? Comente.
1. Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.
2. Toda unanimidade é burra.
3. Toda mulher bonita tem um pouco de namorada lésbica em si mesmo.
4. Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.
5. Um povo que ri da própria desgraça pode ser miserável. Mas jamais derrotado.
6. Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.
7. Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais.
8. A liberdade é mais importante do que o pão.
9. Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de ouro.
10. O dinheiro compra tudo, até o amor verdadeiro.
11. Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.
12. Só o inimigo não trai nunca.
13. Invejo a burrice, porque é eterna.
14. O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes.
15. Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu.
Fonte: Época/Mente Aberta, 20.XII.10
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
domingo, 19 de dezembro de 2010
sábado, 18 de dezembro de 2010
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
FUNCIONÁRIO DO ANO (conto)

Nas duas primeiras apliquei insulina ─ uma overdose, evidente. Foram-se como inocentes passarinhos, sem qualquer resistência, a não ser leve tremer das frágeis asas. Olhando em meus olhos e o brilho se apagando: envidraçando em gotas de tempo interior e real.
Nas três subsequentes triturei, misturei e diluí vários medicamentos; e alegre os injetei em suas provectas veias semientupidas e cansadas de vida esclerosada.
De certa feita, sub-reptício invadi a cozinha e despejei uma receita secreta, familiar, para abater ratos, na sopa da janta. Deu lucro: nove deram baixa permanente.
Noutra noite, inteligente, troquei os rótulos dos vidros de soro e vaselina. Mas apenas dois internos foram liquidamente enganados ─ resultado quase que pífio, considerei, em vista do desgaste intelectual despendido.
Tudo estava nos devidos conformes e coliformes até o dia em que aquelas malditas gêmeas, sexagenárias e desbocadas, tornaram-se inconvenientes, tecendo desairosos comentários acerca das colegas ausentes. Não gostei, torci o bigode e isso sempre não é bom! Juro, não queria, sequer havia pensado no fato, mas, como tinham a boca suja, de repente me veio a ideia e as forcei, utilizando um funil (lembrança de como se produz foie gras), a tomar litros de alvejante com pequenas doses de soda cáustica ─ para lhes lubrificar as pleuras anciãs e enferrujadas. Ao som de Mozart, que adoravam, delicadas arrotaram bolhas coloridas, belíssimas, de tamanhos distintos, e morreram interiormente limpas como se tivessem dado à luz borboletas asiáticas.
O asilo tinha 59 pacientes, doutor: 59! E eu estava apenas no começo, feliz por ser útil à coletividade. Sentia-me um anjo exterminador de dores. Celestial e necessário.
No decorrer de um ano consegui apaziguar as aflições de 27 deles. E para isso trabalhei incessante: sábados, domingos, feriados e datas santas, nos mais variados turnos. Sem esmorecer ou medir esforços, atento a quem precisava de minha cívica e cristã piedade altruísta.
O problema foi a gasolina, doutor. Que provocou as queimaduras na boca e garganta da última sorteada e chamou a atenção para a minha humilde pessoa. Quando os médicos a encontraram, por distração dois litros descansavam no meu armário da zeladoria. E nem carro eu tinha. E as bombas eram elétricas... Intransigentes, chamaram a polícia. Os ‘home’ pegaram pesado. Ficou difícil explicar, ainda mais que, no momento do arrocho, estava bêbado e tudo zoava: as palavras tropeçavam nas pernas bambas da língua enrolada e pastosa. Por isso, me enviaram para esta ala psiquiátrica. Para que descanse um pouco, em vista dos bons serviços prestados... Portanto, aqui estou, disposto a colaborar, de mente forte e corpo são!
E ─ foi-me impossível evitar o gesto ─ ansioso esfreguei as mãos e proferi a pergunta que não queria calar, rezando por uma resposta alvissareira:
─ Disseram-me que se tiver bom comportamento posso ser transferido para a ala infantil, isso é mesmo verdade, doutor?
© MAQUINO, 13/16.XII.10
Nas três subsequentes triturei, misturei e diluí vários medicamentos; e alegre os injetei em suas provectas veias semientupidas e cansadas de vida esclerosada.
De certa feita, sub-reptício invadi a cozinha e despejei uma receita secreta, familiar, para abater ratos, na sopa da janta. Deu lucro: nove deram baixa permanente.
Noutra noite, inteligente, troquei os rótulos dos vidros de soro e vaselina. Mas apenas dois internos foram liquidamente enganados ─ resultado quase que pífio, considerei, em vista do desgaste intelectual despendido.
Tudo estava nos devidos conformes e coliformes até o dia em que aquelas malditas gêmeas, sexagenárias e desbocadas, tornaram-se inconvenientes, tecendo desairosos comentários acerca das colegas ausentes. Não gostei, torci o bigode e isso sempre não é bom! Juro, não queria, sequer havia pensado no fato, mas, como tinham a boca suja, de repente me veio a ideia e as forcei, utilizando um funil (lembrança de como se produz foie gras), a tomar litros de alvejante com pequenas doses de soda cáustica ─ para lhes lubrificar as pleuras anciãs e enferrujadas. Ao som de Mozart, que adoravam, delicadas arrotaram bolhas coloridas, belíssimas, de tamanhos distintos, e morreram interiormente limpas como se tivessem dado à luz borboletas asiáticas.
O asilo tinha 59 pacientes, doutor: 59! E eu estava apenas no começo, feliz por ser útil à coletividade. Sentia-me um anjo exterminador de dores. Celestial e necessário.
No decorrer de um ano consegui apaziguar as aflições de 27 deles. E para isso trabalhei incessante: sábados, domingos, feriados e datas santas, nos mais variados turnos. Sem esmorecer ou medir esforços, atento a quem precisava de minha cívica e cristã piedade altruísta.
O problema foi a gasolina, doutor. Que provocou as queimaduras na boca e garganta da última sorteada e chamou a atenção para a minha humilde pessoa. Quando os médicos a encontraram, por distração dois litros descansavam no meu armário da zeladoria. E nem carro eu tinha. E as bombas eram elétricas... Intransigentes, chamaram a polícia. Os ‘home’ pegaram pesado. Ficou difícil explicar, ainda mais que, no momento do arrocho, estava bêbado e tudo zoava: as palavras tropeçavam nas pernas bambas da língua enrolada e pastosa. Por isso, me enviaram para esta ala psiquiátrica. Para que descanse um pouco, em vista dos bons serviços prestados... Portanto, aqui estou, disposto a colaborar, de mente forte e corpo são!
E ─ foi-me impossível evitar o gesto ─ ansioso esfreguei as mãos e proferi a pergunta que não queria calar, rezando por uma resposta alvissareira:
─ Disseram-me que se tiver bom comportamento posso ser transferido para a ala infantil, isso é mesmo verdade, doutor?
© MAQUINO, 13/16.XII.10
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
CRÍTICA ROCK: Almas gêmeas se encontram na arte
Em biografia, Patti Smith declara seu amor incondicional ao fotógrafo Robert MapplethorpeEntre as tantas biografias roqueiras recém-lançadas, o livro de Patti Smith é o que menos foca a música. Não por acaso, é o melhor deles.
Em "Só Garotos", o rock é pano de fundo. Não apenas o rock, mas também a ressaca da literatura beatnik, o início da contracultura e a revolução comportamental em curso na Nova York da segunda metade da década de 1960.
Acima de tudo, trata-se de uma história de amor. O relacionamento entre Patti e o fotógrafo Robert Mapplethorpe é contado de uma forma às vezes carinhosa, às vezes apaixonada. Desde que se conheceram, em 1967, quando eram dois jovens sem dinheiro no bolso e com uma fé cega em sua arte, até a morte dele, em 1989.
A narrativa abre com a manhã em que a autora recebe a notícia da morte do ex-namorado. Ela professa a condição dos dois como almas gêmeas e dedica as dezenas de páginas seguintes a justificá-la.
Uma das mais importantes vozes femininas da poesia americana, Patti faz isso com beleza e sedução.
Quando se conheceram, viviam de empregos modestos, quase bicos. Morando em lugares insalubres, que tratavam de enfeitar com os desenhos que produziam sem parar, e dividindo um único sanduíche no jantar, passam por um pequeno inferno antes de chegar ao reconhecimento ─ ela, como poeta e depois cantora de rock, e ele, fotógrafo.
São dois sonhadores. Sem dinheiro para comprar um mísero remédio para gonorreia, mas fazendo planos para conhecer Andy Warhol.
Essa fase "sarjeta" do casal rende bons momentos na história, como aquele em que Allen Ginsberg, já na época grande poeta americano, paga uma refeição a uma faminta Patti pensando que ela era um menino magrinho.
Quando vê que é uma garota, Ginsberg perde o interesse e a descarta. Anos depois, Patti já famosa, os dois ficaram amigos e riram muito disso.
Enquanto Patti alcançou popularidade de uma estrela do rock, Mapplethorpe ganhou uma aura polêmica que nunca perderia, mesmo que seus retratos de nus que tanto chocam parte do público americano sejam só uma das faces de seu trabalho.
Chega a comover o amor incondicional de Patti por Mapplethorpe. Ela aceita todas as mudanças do comportamento do amado: da insegurança tímida à confiança em excesso, das gravuras à fotografia, do jeito juvenil de namorar ao bissexualismo sem freio. Todo o tempo, ela sempre ao lado dele.
"Só Garotos" pode ser lido de duas maneiras. Como retrato de uma época e relato dos anos de formação de uma estrela do rock, satisfaz qualquer curiosidade, além do estilo envolvente de Patti Smith ao escrever prosa com momentos quase poéticos.
Como história de amor muito longe das convenções, o livro ganha sua dimensão de uma obra irresistível para românticos, sejam roqueiros ou não.
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SÓ GAROTOS
AUTOR Patti Smith
TRADUÇÃO Alexandre Barbosa de Souza
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 39 (240 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
Fonte: Folha de S. Paulo/Ilustrada, 15.XII.10 - p/Thales de Menezes
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Artista cria retratos de papel em 3D
O holandês Bert Simons digitaliza rostos de pessoas e constrói, como em um quebra-cabeça, esculturas que chamam a atenção pelo realismoSimons começa seu trabalho digitalizando o rosto de quem vai “virar” escultura. Para ter uma referência de modelagem, ele faz uma série de pontos na face do retratado e, usando um software específico, reconstrói a cara da pessoa em 3D.
Para digitalizar o rosto, o artista faz pequenos pontos na face do retratadoAinda no computador, a imagem é remontada em 2D e, depois, é impressa em pedaços que são encaixados como um quebra-cabeça. O resultado final é incrível!
A obra é feita com pedaços de papel encaixados como em um quebra-cabeçaFonte: revistacriativa.globo.com, 14.XII.10
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Willard Wigan esculpe miniaturas dentro de agulhas

Artista inglês se especializou em criar microesculturas para inspirar crianças com dificuldade de aprendizado
Artista usa lascas de diamante para cortar, pelos de mosca como pincel e mel de abelha como cola. Esculturas são feitas com grãos de açúcar e areia, entre outros materiais. Esculturas feitas em miniatura sempre chamam a nossa atenção pelo apuro técnico dos artistas. Seja propondo uma reflexão acerca da vida solitária dos homens nas grandes cidades, reproduzindo objetos de decoração ou simplesmente retratando a nossa vida cotidiana, este tipo de arte vem se tornando cada vez mais comum e provando que, no mundo da arte, não é preciso ser grande para ser grandioso.
A obra do inglês Willard Wigan eleva à máxima potência tudo o que se poderia esperar de alguém com habilidades manuais. Suas microesculturas, criadas dentro de buracos de agulha, não podem nem sequer ser vistas a olho nu.
Diagnosticado com dislexia, Willard foi considerado academicamente inapto por uma professora quando tinha apenas cinco anos. Afastado da escola, ele passou a dedicar a maior parte de seu tempo a criar microesculturas. No começo eram apenas casas para as formigas no jardim e logo elas tinham mesas, cadeiras, carrosséis, copos e até talheres de mesa. “Era um mundo da fantasia que eu usava para escapar para onde meus professores não podiam me criticar”, diz ele, em seu site.
Hoje ele retrata pessoas famosas como Cameron Diaz, a família Obama e Oprah Winfrey ─ que podem ser vistas somente com um microscópio ou lentes de aumento potentes ─, expõe em galerias pelo mundo todo e faz questão de contar sua história em escolas para ajudar crianças que têm dificuldade de aprendizado a descobrirem seu potencial.
Artista usa lascas de diamante para cortar, pelos de mosca como pincel e mel de abelha como cola. Esculturas são feitas com grãos de açúcar e areia, entre outros materiais. Esculturas feitas em miniatura sempre chamam a nossa atenção pelo apuro técnico dos artistas. Seja propondo uma reflexão acerca da vida solitária dos homens nas grandes cidades, reproduzindo objetos de decoração ou simplesmente retratando a nossa vida cotidiana, este tipo de arte vem se tornando cada vez mais comum e provando que, no mundo da arte, não é preciso ser grande para ser grandioso.
A obra do inglês Willard Wigan eleva à máxima potência tudo o que se poderia esperar de alguém com habilidades manuais. Suas microesculturas, criadas dentro de buracos de agulha, não podem nem sequer ser vistas a olho nu.
Diagnosticado com dislexia, Willard foi considerado academicamente inapto por uma professora quando tinha apenas cinco anos. Afastado da escola, ele passou a dedicar a maior parte de seu tempo a criar microesculturas. No começo eram apenas casas para as formigas no jardim e logo elas tinham mesas, cadeiras, carrosséis, copos e até talheres de mesa. “Era um mundo da fantasia que eu usava para escapar para onde meus professores não podiam me criticar”, diz ele, em seu site.
Hoje ele retrata pessoas famosas como Cameron Diaz, a família Obama e Oprah Winfrey ─ que podem ser vistas somente com um microscópio ou lentes de aumento potentes ─, expõe em galerias pelo mundo todo e faz questão de contar sua história em escolas para ajudar crianças que têm dificuldade de aprendizado a descobrirem seu potencial.

Fonte:Revistacriativaglobo.com online, 13.XII.10
Cientistas querem exumar Da Vinci para provar semelhança com Mona Lisa
Pesquisadores querem reconstruir rosto de artista para testar teoria de que quadro seria autorretrato
As teorias mais comuns são as de que La Gioconda seria a mãe de Leonardo ou a mulher de um mercador de Florença
As teorias mais comuns são as de que La Gioconda seria a mãe de Leonardo ou a mulher de um mercador de Florença
Um grupo de pesquisadores italianos quer exumar o corpo de Leonardo da Vinci para reconstruir o rosto do artista e confrontar a teoria de que o famoso quadro Mona Lisa seria um autorretrato.
A teoria ganhou força com sobreposições feitas de um autorretrato oficial de Leonardo com o rosto de Mona Lisa no quadro. Os estudos apontaram para diversos pontos e traços em comum entre as duas faces.
Os cientistas do Comitê Nacional para a Valorização dos Bens Históricos, Culturais e Ambientais da Itália pretendem exumar a ossada do pintor e, a partir da face, reconstruir sua cabeça.
"Somente a partir deles será possível reconstruir o rosto de Leonardo e confrontá-lo com o autorretrato conhecido dele e com a Mona Lisa", disse à BBC Brasil o antropólogo da Universidade de Bolonha Giorgio Gruppioni, um dos responsáveis pela pesquisa.
A identidade da pessoa retratada no famoso quadro é tida como um dos grandes mistérios do mundo das artes. As teorias mais comuns são as de que La Gioconda seria a mãe de Leonardo ou a mulher de um mercador de Florença.
Restos mortais
Mas os cientistas terão de enfrentar vários desafios para recriar o rosto de Da Vinci. O primeiro será encontrar os restos mortais do artista.
Leonardo da Vinci morreu em 1519, aos 67 anos, e teria sido enterrado no castelo de Amboise, no vale do Loire, na França. Os proprietários do imóvel devem abrir suas portas para os estudos nos próximos meses.
Como o local foi alvo de saques ao longo dos séculos, não há certeza de que a sepultura seja mesmo a de Leonardo da Vinci. Justamente por isso, os herdeiros do castelo nunca incluíram a informação nos panfletos turísticos locais.
"Ali está escrito que, talvez, ele esteja enterrado ali. A ideia é demonstrar que aqueles ossos, existindo, sejam de Leonardo. Temos que retirar o material e analisá-lo", afirmou Gruppioni.
O presidente do Comitê, Silvano Vinceti, iniciou o projeto quatro anos atrás. "As negociações continuam e esperamos que tudo dê certo. Temos tecnologia para avaliar sem fazer maiores escavações. Usaremos incursões com microssondas, uma câmera para filmar o interior da tumba e exames de imagens tridimensionais para verificar o estado da tumba e nos certificarmos da presença de ossos", afirmou ele à BBC Brasil.
A etapa seguinte seria comprovar se os ossos, caso sejam mesmo encontrados, são de Da Vinci. Para isso, os pesquisadores estão na busca por descendentes vivos, o que é pouco provável, ou por familiares sepultados nos cemitérios da Itália, com maior probabilidade nos arredores de Bolonha. Essa é a parte mais complexa da pesquisa. "Ao extrair o DNA dos ossos teremos que compará-lo com o de alguém que tenha tido um grau de parentesco com Leonardo da Vinci", explica Gruppioni.
Um ponto de partida já foi identificado mas ainda precisa ser melhor avaliado. "Encontramos um pintor, que seria um descendente de linha paterna de Leonardo da Vinci, enterrado em Bolonha, na virada dos séculos 15 e 16, mas temos que aprofundar a pesquisa", disse Vinceti.
Crânio
O último passo será a reconstrução do crânio, que poderá estar fragmentado. A equipe usará sistemas virtuais e métodos de morfologia para recompor as partes ausentes. "Podemos hoje dar respostas que dez anos atrás não seriam imagináveis", diz Vinceti.
A partir do crânio, a face será restaurada em um computador e depois modelada em plástico. "O rosto é modelado segundo um protocolo de antropologia forense que requer a mão artística para dar forma às partes moles, de acordo com critérios anatômicos e científicos que não deixam espaço para a livre interpretação", explica Gruppioni.
No caso da relação entre Mona Lisa e Da Vinci, Gruppioni se diz cético. "Não tenho elementos para afirmar que Leonardo, quando pintou a Mona Lisa, tenha decidido incluir traços seus. Acho pouco plausível, mas devemos investigar", disse ele, mais preocupado em desvendar o rosto de Leonardo da Vinci do que em constatar se ele tinha traços efeminados ou se teria sido homossexual.
"Acho que teremos fila para visitar a tumba de Leonardo caso a pesquisa chegue ao final com sucesso e desvende mais este mistério", concluiu.
Fonte: Globo.com - G1 Ciência e Saúde/ Arte e Ciência, 27.I.10 - foto: Wiki commons via BBC
A teoria ganhou força com sobreposições feitas de um autorretrato oficial de Leonardo com o rosto de Mona Lisa no quadro. Os estudos apontaram para diversos pontos e traços em comum entre as duas faces.
Os cientistas do Comitê Nacional para a Valorização dos Bens Históricos, Culturais e Ambientais da Itália pretendem exumar a ossada do pintor e, a partir da face, reconstruir sua cabeça.
"Somente a partir deles será possível reconstruir o rosto de Leonardo e confrontá-lo com o autorretrato conhecido dele e com a Mona Lisa", disse à BBC Brasil o antropólogo da Universidade de Bolonha Giorgio Gruppioni, um dos responsáveis pela pesquisa.
A identidade da pessoa retratada no famoso quadro é tida como um dos grandes mistérios do mundo das artes. As teorias mais comuns são as de que La Gioconda seria a mãe de Leonardo ou a mulher de um mercador de Florença.
Restos mortais
Mas os cientistas terão de enfrentar vários desafios para recriar o rosto de Da Vinci. O primeiro será encontrar os restos mortais do artista.
Leonardo da Vinci morreu em 1519, aos 67 anos, e teria sido enterrado no castelo de Amboise, no vale do Loire, na França. Os proprietários do imóvel devem abrir suas portas para os estudos nos próximos meses.
Como o local foi alvo de saques ao longo dos séculos, não há certeza de que a sepultura seja mesmo a de Leonardo da Vinci. Justamente por isso, os herdeiros do castelo nunca incluíram a informação nos panfletos turísticos locais.
"Ali está escrito que, talvez, ele esteja enterrado ali. A ideia é demonstrar que aqueles ossos, existindo, sejam de Leonardo. Temos que retirar o material e analisá-lo", afirmou Gruppioni.
O presidente do Comitê, Silvano Vinceti, iniciou o projeto quatro anos atrás. "As negociações continuam e esperamos que tudo dê certo. Temos tecnologia para avaliar sem fazer maiores escavações. Usaremos incursões com microssondas, uma câmera para filmar o interior da tumba e exames de imagens tridimensionais para verificar o estado da tumba e nos certificarmos da presença de ossos", afirmou ele à BBC Brasil.
A etapa seguinte seria comprovar se os ossos, caso sejam mesmo encontrados, são de Da Vinci. Para isso, os pesquisadores estão na busca por descendentes vivos, o que é pouco provável, ou por familiares sepultados nos cemitérios da Itália, com maior probabilidade nos arredores de Bolonha. Essa é a parte mais complexa da pesquisa. "Ao extrair o DNA dos ossos teremos que compará-lo com o de alguém que tenha tido um grau de parentesco com Leonardo da Vinci", explica Gruppioni.
Um ponto de partida já foi identificado mas ainda precisa ser melhor avaliado. "Encontramos um pintor, que seria um descendente de linha paterna de Leonardo da Vinci, enterrado em Bolonha, na virada dos séculos 15 e 16, mas temos que aprofundar a pesquisa", disse Vinceti.
Crânio
O último passo será a reconstrução do crânio, que poderá estar fragmentado. A equipe usará sistemas virtuais e métodos de morfologia para recompor as partes ausentes. "Podemos hoje dar respostas que dez anos atrás não seriam imagináveis", diz Vinceti.
A partir do crânio, a face será restaurada em um computador e depois modelada em plástico. "O rosto é modelado segundo um protocolo de antropologia forense que requer a mão artística para dar forma às partes moles, de acordo com critérios anatômicos e científicos que não deixam espaço para a livre interpretação", explica Gruppioni.
No caso da relação entre Mona Lisa e Da Vinci, Gruppioni se diz cético. "Não tenho elementos para afirmar que Leonardo, quando pintou a Mona Lisa, tenha decidido incluir traços seus. Acho pouco plausível, mas devemos investigar", disse ele, mais preocupado em desvendar o rosto de Leonardo da Vinci do que em constatar se ele tinha traços efeminados ou se teria sido homossexual.
"Acho que teremos fila para visitar a tumba de Leonardo caso a pesquisa chegue ao final com sucesso e desvende mais este mistério", concluiu.
Fonte: Globo.com - G1 Ciência e Saúde/ Arte e Ciência, 27.I.10 - foto: Wiki commons via BBC
Mona Lisa guarda em pupila a chave de sua identidade, diz nova teoria
Italiano diz que 'B' e 'S e iniciais 'CE' estão registradas no olho esquerdoMistério já foi objeto de teorias na ficção, como em 'O Código Da Vinci'
As teorias mais comuns são as de que La Gioconda seria a mãe de Leonardo ou a mulher de um mercador de Florença. A Mona Lisa de Leonardo da Vinci guarda em sua pupila esquerda a chave da identidade da modelo em que o pintor se inspirou, segundo o investigador italiano Silvano Vinceti, cujas teorias são divulgas nesta segunda-feira (13) pelo jornal "The Guardian".
De acordo com Vinceti, que é presidente da comissão nacional de patrimônio cultural em seu país, o gênio renascentista, amante dos códigos, pintou uma série de letras pequenas nas duas pupilas de Mona Lisa.
"Invisíveis ao olho humano e pintadas em preto sobre verde e marrom, estão as letras LV em sua pupila direita, obviamente as iniciais de Leonardo, mas o mais interessante está em sua pupila esquerda", afirma o investigador, em declarações recolhidas pelo jornal.
Vinceti sustenta que no olho aparecem as letras "B" e "S", além de, possivelmente, as iniciais "CE", o que considera de vital importância para averiguar a identidade da modelo.
A modelo foi identificada frequentemente como Lisa Gherardini, a esposa de um mercador florentino, mas o investigador italiano não está de acordo, já que mantém que a Mona Lisa foi pintada em Milão.
"Atrás do quadro aparecem os números 149, com um quarto número médio apagado, o que sugere que Da Vinci o pintou quando estava em Milão na década de 1490, usando como modelo uma mulher da corte de Ludovico Sforza, o duque de Milão", declara ao jornal.
"Leonardo gostava de utilizar símbolos e códigos para transmitir mensagens, e queria que descobríssemos a identidade da modelo através de seus olhos", prossegue o italiano, que deve detalhar suas conclusões no próximo mês.
O mistério da Mona Lisa já foi objeto de teorias também na ficção, como no caso do romance "O Código Da Vinci", na qual o autor, Dan Brown, sugere que o nome é um anagrama para Amon l'Isa, em referência a antigas divindades egípcias.
Fonte: Globo.com - G1 Ciência e Saúde, 13.XII.10 - foto: Wiki commons
HUMANA CONDIÇÃO (miniconto)
Pavio curto, temperamento animal, teve um acesso de raiva canina: desfigurou a mulher a golpes de soco inglês e fugiu. Não distava mais de um quarteirão da cena do crime quando foi alcançado.Apanhou muito e seu corpo, recolhido, foi posteriormente desmembrado e suas partes espetadas nas pontas de cerca de afastada fazenda, expostas à execração do tempo e a ação dos urubus.
Ato concretizado, seu filho, nada compungido, declama a seguinte citação da Bíblia dos Infernos (Napocalipse 1:1): “ Além de arrogante, humano, tu és carne e nesta condição putrefarás inevitavelmente”.
© MAQUINO, 11.XII.10
Como esconder 217 "picassos" numa garagem por 40 anos
Retrato do artista espanhol Pablo Picasso feita pelo fotógrafo de moda Richard AvedonO eletricista aposentado Pierre Le Guennec tem cara de boa gente e jeito de uma pessoa da qual se pode comprar um carro usado. Recentemente, ele se transformou no faz-tudo mais famoso e perseguido da França. Um artigo no “Libération” informou que ele guardou, durante 40 anos, 271 obras inéditas de Picasso num canto da garagem de sua casa em Mouans-Sartoux, no sul da França, a 20 quilômetros de Cannes, envoltas numa sacola de plástico, como ele mesmo contou, ao lado de suas ferramentas de eletricista e de um monte de fios velhos. Ele garante que elas foram um presente do pintor em 1973. “E estão bem conservadas”, acrescentou, com um sorriso retraído, “apesar dos ratos que existem aqui”.
Guennec – que usa óculos pendurados com um cordão, suspensórios e camisa de lenhador de 30 anos atrás – é muito tímido e custa-lhe conseguir se explicar. Ele fala em solavancos e esconde o rosto com as mãos num repetido gesto de impotência. Quando se comenta que os desenhos que ele guardou por tanto tempo em segredo valem mais de oitenta milhões de euros, ele murmura (aparentemente) constrangido pelo número: “Isso não é possível. Isso vai muito além.”
Para o advogado dos herdeiros da família Picasso, Gennec é um ladrão mentiroso muito esperto, com cara de homem bom, que conseguiu manter em segredo e escondido um tesouro roubado há 40 anos e que agora o está revelando para deixar uma herança para seus dois filhos, e cuja impostura pode acabar numa condenação à prisão; para a advogada Evelyn Rees, de Cannes, que defende Gennec e sua esposa animosa e charlatã Danielle, eles são simplesmente um casal humilde de anciãos que viveram sempre do escasso salário do marido (coisa que a polícia corrobora), transformados de uma hora para outra em protagonistas de uma história tão inverossímil quanto real, dessas que só podem acontecer em Provença, e que começou numa manhã de 1970.Nesse dia, o secretário de Picasso, Miguel Algo, telefonou para mim para que eu fosse consertar o motor do forno que havia quebrado em sua casa de Mougins, que fica perto de onde eu morro. Fui e consertei. Depois voltei muito ali, para consertar lustres, tomadas, torneiras, colocar um sistema de alarme por toda a casa”, explica Guennec, muito lentamente, olhando para o chão.
"Mas conte sobre o chapéu, homem, o chapéu", ordena Danielle.
Um dia, quando eu estava consertando as luzes do jardim, o secretário, Miguel, chamou-me e disse que o maestro estava me chamando. Eu cheguei perto. Estavam tomando café da manhã na varanda. Picasso indicou para que eu me sentasse a seu lado. Ficou olhando para o chapéu de palha que eu tinha. Jacqueline [Roque, última esposa de Picasso] pediu para que eu lhe desse de presente. Eu lhe dei, claro. Logo vi que ele o havia utilizado para um cartaz de uma exposição em Avignon”.
Depois, um dia não determinado em 1973, meses antes de o pintor morrer, quando Guennec ia para casa depois do trabalho, Jacqueline se aproximou: “Vinha com uma caixa de papelão e disse para mim: 'Para você, de parte do maestro'. Vi que eram uns papéis, uns desenhos, mas não dei muita importância, coloquei na camionete e voltei para casa. Ao chegar os envolvi bem e os deixei numa estante da garagem. Para mim não eram quadros, não eram pinturas, muitos não estavam acabados, eram desenhos, provas, aos quais não dei muito valor...”.
A resoluta Danielle acrescenta: “Talvez agora teríamos feito outra coisa. Mas na época, éramos jovens, não sabíamos. Ele tinha 30 anos e eu, 27”.
Guardaram o conteúdo da caixa, jamais falaram dela para ninguém, passaram-se 40 anos, e há alguns meses Pierre decidiu desenterrá-la. Por que agora? “Porque faz um ano que fui diagnosticado com um câncer de próstata. Operaram-me, por prevenção, e estou bem, mas pensei que se eu morresse, meus filhos iam se perguntar o que eram esses desenhos, então decidi contar a história e para que ficasse claro que eram de Picasso, procurei seus herdeiros.”
Assim, em janeiro ele telefonou para a sociedade Picasso Administration em Paris e explicou a uma secretária que possuía várias obras do pintor e que desejava autenticá-las. A sociedade está acostumada a receber telefonemas de loucos ou oportunistas que afirmam ter um quadro ou desenho do artista, assim deram a Guennec a resposta padrão: “Tire algumas fotos e nos envie pelo correio”.
O velho eletricista, ajudado por um de seus filhos, colocou uma moldura branca de papel em cada desenho e pôs-se a trabalhar: “Enquanto os fotografávamos, íamos colocando o título que nos parecia melhor, com um pouco de improviso: um chamamos de Bailarina, o outro de cabeça de mulher..., não sei”. Enviou cerca de trinta fotos. O Picasso Administration pediu mais. Ele obedeceu. E em setembro, Claude Picasso, um dos filhos do pintor e encarregado de administrar a herança, intrigado pelas fotos ruins em branco e preto que escondiam obras desconhecidas, telefonou para Guennec e pediu que as levasse a Paris para que ele as estudasse pessoalmente.
“Colocamos todos os desenhos numa maleta com rodas e fomos de trem a Paris, Danielle e eu”, explica Guennec, encolhendo os ombros.
O filho de Picasso e um colaborador contemplaram estupefatos durante três horas o maravilhoso conteúdo da maleta dos dois idosos: um pequeno caderno com uma centena de deliciosos desenhos de Picasso a lápis e a tinta, anotações ao natural, ensaios, caricaturas; mas também cerca de 30 litografias (várias idênticas), um retrato a tinta da primeira mulher de Picasso, Olga Koklowa, nove colagens cubistas que por si só valem mais de quarenta milhões de euros, uma dezena de esboços das Três Graças, uma aquarela de seu período azul e várias paisagens (muito raras na obra de Picasso), entre outros tesouros.
Em nenhum momento duvidaram de sua autenticidade. Ninguém no mundo poderia ter imitado com tanta perfeição tantas técnicas diferentes de Picasso. O valor aproximado das obras guardadas na garagem de Guennec está por volta dos oitenta milhões de euros, segundo vários especialistas franceses. Anne Baldasari, diretora do Museu Picasso Paris, numa entrevista concedida ao jornal “Le Figaro”, afirmou: “As inúmeras peças que surgiram têm uma importância considerável para esclarecer a obra de Picasso em sua juventude. São exemplares de sua coleção pessoal, dos anos 1900 a 1932”.
Recuperado da comoção, Claude Picasso recomendou a Guennec que tirasse fotos coloridas – e de boa qualidade – das obras para autenticá-las de uma vez e o recomendou um fotógrafo parisiense. E continuaram conversando. Guennec consentiu e foi ver o fotógrafo logo que saiu da entrevista. “Mas ele cobrava quarenta euros por foto, e portanto fomos embora”, explica.
Danielle e Pierre voltaram de trem para sua casa em Proença, com os desenhos mais uma vez dentro da maleta de rodas. Ao chegar em casa, guardaram num baú onde Guennec conserva uma coleção de armas antigas. E se puseram a esperar o telefonema da família Picasso. Em vez disso, na mesma semana chegaram à sua casa vários agentes especializados do Escritório Central Contra o Tráfico de Bens Culturais que reclamaram imediatamente as obras e informaram que ele havia sido denunciado pelos herdeiros de Picasso.
Assombrado e assustado, segundo conta, Guennec mostrou à polícia o baú onde guardava os desenhos. Depois, os policiais revistaram minuciosamente toda a casa, quarto por quarto, o jardim, e a famosa garagem. Mas não encontraram mais nada. Guennec não havia retirado nem um só desenho que mostrou a Claude Picasso: todos estavam lá. Os três (os desenhos, Pierre e Danielle), foram levados à delegacia. Lá, o eletricista aposentado ficou sabendo que os herdeiros de Picasso não o haviam denunciado por roubo (delito já prescrito), mas por se apropriar de um bem roubado (delito ainda vigente). Preso por roubo, passou uma noite na cadeia.
"Eu fui solta depois de três horas", diz Danielle, sorridente.
O advogado da Picasso Administration, Jean-Jacques Neuer, em seu escritório em uma das áreas mais nobres de Paris, explicou os motivos que os levaram a acusar Guennec: “Para nós, está claro que ele roubou as pinturas. Nenhum dos desenhos está dedicado. Todos pertencem a um período determinado, como se estivessem arquivados num mesmo lugar, na mesma caixa. Ninguém conhece esse senhor Guennec de nenhum lugar, ele não aparece em lugar nenhuma na biografia do artista provavelmente mais estudado da história. Não acreditamos que tenha sido amigo de Picasso”.
E acrescenta: “Se lhe presenteiam com uns desenhos de Picasso, você os coloca em sua casa, pendura-os na parede, os expõe, e não os deixa escondidos na garagem. Por que ele os escondeu durante quarenta anos? Além disso, não imagino Picasso presenteando seu eletricista com um lote de desenhos, muitos deles inacabados, ou presenteando-o com algumas colagens surrealistas que não teria dado nem a Braque. Tudo isso não faz sentido, é simplesmente aberrante.”
Contudo, a imprensa local defende o eletricista e enfatiza o fato de que jamais tentou vender nenhum desenho às escondidas, que não tentou escapar depois de falar com Claude Picasso, que nem sequer escondeu as obras e nem separou nenhuma para ele depois de viajar a Paris. Os especialistas em arte, pelo contrário, opinam que Guennec se apropriou de algo que não lhe pertencia, apelando pelas mesmas razões que Neuer. Há galeristas de Niza que opinam, entretanto, que Jaqueline Roque pode bem ter-lhe dado a caixa por equívoco e que isso explicaria o caso. O prefeito de Mouans-Sartoux, André Aschieri, só se lembrou, numa entrevista recente ao “Le Figaro”, que Pierre sempre foi um vizinho exemplar de quem jamais se ouviu um episódio escuso. E sua advogada há 15 dias, Evelyn Rees, assegura que os herdeiros de Picasso tratam de sujar uma bonita história de gente honrada que teve a sorte de conhecer Picasso porque simplesmente viviam a dez minutos de distância de carro.
O mesmo Guennec, com seu nervosismo ao falar e seus gestos de impotência, explica inocentemente que ele jamais pensou que esse lote de desenhos, muitos inacabados, sem molduras, valiam alguma coisa, que jamais imaginou que esse monte de pinturas desordenadas dentro de uma caixa de papelão poderiam ser consideradas obras primas, que por isso guardou tudo na garagem e que foi apenas a ameaça de morte depois de operar seu câncer e a necessidade de que seus filhos entendessem de onde vinha isso que fizeram com que ele se dirigisse a Claude Picasso. E não entende que pode terminar na prisão.
Por enquanto, a polícia investiga os quadros confiscados e em sua custódia numa delegacia de Nanterre. Depois, quem decidirá será o fiscal da área. Isso acontecerá no final de dezembro. Ele deverá elucidar se Guennec é o que parece, ou seja, um aposentado pacífico com aspecto de bom vizinho a quem a sorte sorriu há 40 anos, ou pelo contrário, é um grande ator disposto a rentabilizar o golpe de sua vida.
Se o fiscal acreditar que existem suspeitas de delito, o caso continuará nas mãos de um juiz de instrução. Se não, os 80 milhões de euros em pinturas e desenhos voltarão à casa do eletricista aposentado com 1.200 euros de aposentadoria.
O que então ele fará com as obras, convenientemente autentificadas, já avaliadas em uma fortuna, se o juiz decidir assim?
Guennec volta a esconder a cabeça com as mãos, balbucia um pouco, sorri (talvez enigmaticamente, talvez não), e diz: “Não sei. Isso vai além”.
Fonte: El País, 13.XII.10 - p/ Antonio Jiménez Barca - tradução: Eloise De Vylder , em UOL Notícias
sábado, 11 de dezembro de 2010
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
3D feito a lápis
Artista faz ilustrações impressionantes em 3D, usando apenas lápis e papelA perspectiva tridimensional encanta o público no cinema e nas televisões mais modernas. Mas saiba que não é preciso tanta tecnologia para criar cenas surpreendentes em 3D.
O artista chileno Fredo (http://drawingopenmythirdeye.blogspot.com/) usa a técnica para fazer desenhos, nos quais utiliza apenas lápis e papel.
Confira algumas das ilustrações nas fotos abaixo:



Fonte: Casa e Jardim Online quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Playboy" vende obras de arte e fotografias eróticas em leilão histórico
Pintura "Mouth 8" (1966), do artista norte-americano Tom Wesselmann, que foi vendida por US$ 1.874.500 em leilão histórico da "Playboy" - Christie's/APNova York, 8 dez - A consagrada revista erótica "Playboy" promoveu nessa quarta-feira (8) um leilão histórico de parte de sua coleção de obras de arte e fotografias, que teve como principal destaque a pintura "Mouth 8" (1966), do artista norte-americano Tom Wesselmann, vendida por US$ 1.874.500.
Os sedutores lábios vermelhos da obra ─ pintados em óleo e acrílico por este integrante do movimento do Pop Art e conhecido por seus impactantes nus femininos ─ não chegaram a atingir, no entanto, o preço especulado previamente, que se situava entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões.
Intitulado "The Year of The Rabbit" (O Ano do Coelho) ─ em homenagem ao famoso logotipo da "Playboy", criado pelo artista Art Paul ─, o leilão ofereceu numerosas obras de arte e fotografias de nus de algumas das mulheres mais famosas e desejadas das últimas décadas, expostas na revista fundada por Hugh Hefner em 1953.
Entre as peças de destaque do leilão, realizado na casa de leilões Christie's, em Nova York, estava também a famosa pintura "Playmate", elaborada em 1966 pelo espanhol Salvador Dalí (1904-1989) a pedido da revista. A obra acabou sendo vendida por US$ 266.500, superando as expectativas que giravam entre US$ 100 mil e US$ 150 mil.
"Playmate" foi incluída na edição de janeiro de 1967 da revista e estava pendurada até pouco tempo atrás no quarto de Hefner, na conhecida Mansão Playboy, em Beverly Hills, Califórnia.
A "Playboy" começou a circular em 1953 com um dos mitos eróticos do século 20 e uma das principais protagonistas deste leilão: Marilyn Monroe (1926-1962).
Entre as várias fotografias leiloadas da musa loira, destacou-se a imagem na qual Marilyn cumprimenta o público durante sua participação como madrinha do desfile da Miss América em 1952, capa do primeiro número da "Playboy". A imagem foi vendida por US$ 14 mil.
Brigitte Bardot, outro emblema feminino da sétima arte e musa erótica da França nos anos 50 e 60, também foi centro das atenções dos compradores.
A coleção Playboy ofereceu um retrato de corpo inteiro no qual a atriz, vestida apenas de calcinha, cobre os seios com as mãos e seus longos cabelos loiros.
A foto, que estampou a capa de março de 1958 da "Playboy", foi vendida por US$ 23.750, superando todas as expectativas, estimadas entre US$ 4 mil e US$ 6 mil.
Ao todo, o valor total das obras leiloadas na Christie's passou dos US$ 2,9 milhões.
Fonte: UOL Entretenimento, 9.XII.10
REFORMA DOMÉSTICA (miniconto)
No quarto, mudou a cama de lugar e, a seguir, foi tomar café com a mãe. No dia posterior foi visto, aflito, entrando numa delegacia para registrar o desaparecimento da mesma. Por uma semana peregrinou pelas ruas colando nos postes, nervoso, panfletos que ostentavam a foto da mãe e solicitavam informações que a pudessem localizar.
Não houve notícias auspiciosas. Continuou a levar a vidinha de sempre até que no começo de uma manhã, decorridas 29 noites, foi acordado com um chute na porta e, ainda estremunhado de sono, energicamente sacudido por policiais.
Após breve revista na residência, o cimento novo sob o leito denunciou a improvisada obra, cujo interior abrigava o cadáver. Inebriado pela surpresa e o putrefato odor, confessou ter matado a mãe a golpes de martelo, por ter estragado seu ovo frito e negar-se a lhe dar dinheiro para comprar crack.
Indagado porque a enterrara sob a própria cama, cândido afirmou que sempre foram muito unidos e, portanto, não conseguiria ficar longe “da velha” ─ a qual, surgindo no meio de camadas de brita, terra, sacos plásticos e uma mistura de cal, com a dentadura quebrada e proeminente a lhe escorrer da boca, parecia sorrir em 3D defeituoso e fantasmagórico.
© MAQUINO, 5.XII.10
© MAQUINO, 5.XII.10
KENNETH MAXWELL: John Lennon
Ontem foi o 30º aniversário do assassinato de John Lennon, em Nova York. Em 8 de dezembro de 1980, Lennon foi morto com cinco tiros nas costas por Mark Chapman, um jovem texano de 25 anos. Lennon estava voltando para casa, no renomado edifício Dakota, esquina da rua 72 com a avenida Central Park West.
Morreu pouco depois, no hospital Roosevelt, bem próximo ao local do crime.
Na década posterior a 1960, os Beatles transformaram a música popular. Depois de sua apresentação no programa de TV de Ed Sullivan, em 1964, nos Estados Unidos, se tornaram uma sensação internacional.
Em 1970, no entanto, Lennon e Paul McCartney tiveram um desentendimento que se tornou famoso. McCartney agora atribui a dissolução dos Beatles ao comportamento de Lennon e seus comentários negativos às "drogas". Os dois seguiram caminhos separados. Em 1971, Lennon se mudou para Nova York, aonde chegou no pico da Guerra do Vietnã, durante o governo de Richard Nixon.
Lennon não era popular entre as autoridades. Era um ativista político franco e declarado e se opunha à guerra no sudeste asiático.
Como muitas pessoas de sua geração, usava drogas: cannabis e LSD. Suas canções não tentavam disfarçar o fato.
Também declarou que "hoje os Beatles são mais populares que Jesus", alegação que não incomodou muito os fãs do grupo na Inglaterra, mas causou grande irritação aos norte-americanos. Seria desnecessário dizer que Nixon tentou conseguir sua deportação. John Lennon respondeu por meio de seu famoso "sleep-in" com Yoko Ono, em Toronto, e com o memorável verso: "Tudo que pedimos é: dê uma chance à paz".
Depois de sua morte, uma bela área do Central Park, diante do edifício Dakota, foi dedicada à sua memória. O local é visitado por milhares de fãs a cada ano.
Conhecido como "Strawberry Fields", leva o nome de uma das canções que definiram o rock psicodélico, na qual Lennon relembrava a sede do Exército da Salvação, que, no passado, ficava a um quarteirão de distância da casa onde viveu na infância em Woolton, um subúrbio de Liverpool.
Esta semana traz lembranças de um período turbulento e de uma morte prematura, violenta e desnecessária. Mas também faz recordar uma era de esperança e de contestação aos lúgubres defensores da ortodoxia e da guerra sem fim. Seria difícil imaginar John Lennon tocando na Casa Branca, mesmo em 2010 e mesmo para Barack Obama.
Fonte: Folha de S. Paulo, 9.XII.10
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
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