Sub-reptício
primeiramente o poema instala-se
no encapsulamento dos ossos
e articulações do delicado ofício
− à espreita das imagens contidas
nos internos precipícios
das veias
e cerebrais rebuliços
E lá fica a germinar
seus odores e sabores:
ora doces ora cítricos
ora risíveis ora doloridos
Cabe ao insight do poeta
digerir e perceber suas emanações
e os quase imperceptíveis
e surrealmente incríveis
movimentos osmótico e molecular
(como asas de borboleta que lentas se abrem ao luar)
A seguir
de modo imprevisível
tem início a irrupção criativa:
num jorro
− como vômito ou irrefreável gozo
estético e fugidio
à espera de domínio e captura frasal
do inaudito cio
Se bem aproveitado
cerca de 35% de seu exosqueleto orgânico-vocabular
é lançado ao espaço gráfico-mental
(mas ainda sem definida voz ou sombra a decair)
A partir daí
compete ao poeta
apenas a laboriosa tarefa
(para dar-lhe efetivo corpo e vida)
de extrair as pseudomáscaras
embutidas nas entrelinhas
e ímpio dissecar-lhe a silábica dorsal espinha
(com a ponta da caneta)
e acrescentar-lhe músculos
emoção
alma
tesão&sangue
− e salpicos de picardia&mutreta
à guisa de prepositiva e necessária muleta
para os vis
ardis
quotidianos
que ano a ano
frutificam
( Ave Maria!)
© MAQUINO, 7.II.12 - Arte: Konrad Zeller


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