terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

POEMA EM PARTO



Sub-reptício

primeiramente o poema instala-se

no encapsulamento dos ossos

e articulações do delicado ofício

à espreita das imagens contidas

nos internos precipícios

das veias

e cerebrais rebuliços


E lá fica a germinar

seus odores e sabores:

ora doces ora cítricos

ora risíveis ora doloridos


Cabe ao insight do poeta

digerir e perceber suas emanações

e os quase imperceptíveis

e surrealmente incríveis

movimentos osmótico e molecular

(como asas de borboleta que lentas se abrem ao luar)


A seguir

de modo imprevisível

tem início a irrupção criativa:

num jorro

como vômito ou irrefreável gozo

estético e fugidio

à espera de domínio e captura frasal

do inaudito cio


Se bem aproveitado

cerca de 35% de seu exosqueleto orgânico-vocabular

é lançado ao espaço gráfico-mental

(mas ainda sem definida voz ou sombra a decair)


A partir daí

compete ao poeta

apenas a laboriosa tarefa

(para dar-lhe efetivo corpo e vida)

de extrair as pseudomáscaras

embutidas nas entrelinhas

e ímpio dissecar-lhe a silábica dorsal espinha

(com a ponta da caneta)

e acrescentar-lhe músculos

emoção

alma

tesão&sangue

e salpicos de picardia&mutreta

à guisa de prepositiva e necessária muleta

para os vis

ardis

quotidianos

que ano a ano

frutificam

( Ave Maria!)


© MAQUINO, 7.II.12 - Arte: Konrad Zeller

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Baú de osSOS virTUais (com afrocano picante tutano)